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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Nau

Rumor de tempestade. O mar rugia,
tornando, então, fatal a odisseia
da minha humanidade. Escuro o dia,
reuniu-se sobre mim a assembleia

do Olimpo feminino: após o vento
que veio d’Hera, Ártemis cessou
as vagas que trouxessem movimento
à nau que Menelau extraditou.

Assim, parado, sob o pálio escuro,
surgiram dois fanais brilhando, claros,
fazendo meu caminho mais seguro,

pois não existe sorte de cadena,
pendente dos porões os mais amaros,
que não se rompa ao doce olhar de Atena.

Leonardo Ramos.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Narciso



Narciso, és o mais belo dos mortais!
As deusas todas te adoram!

Narciso, não percebes que as mulheres
Todas de ti se enamoram?

Narciso, o eco de teu sucesso
Te coloca em desvario.

Narciso, tua beleza é infértil,
Joga teu corpo no rio.

Leonardo Ramos.

domingo, 10 de julho de 2011

Eu

Meu
Eu
É
Teu

Sem
Céu,
Ao
Léu.

Mel,
Fel
E
Véu.

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Corpo



Quando é que te verei? Na tua espera
Sou presa desse deus que me devora
Sem pressa, membro a membro; muito embora
Eu permaneça vivo. Ah!, eu quisera

Que no ventre de Cronos – essa fera
De ódio cheia e raiva sem demora –
Eu reencontrasse o meu amor d’outrora,
Assim como, ali, Zeus reouve Hera.

Mas no âmago do Tempo não há nada
Além dum só rochedo – cujo cume
Rapidamente alcanço. Na saliência

Meu corpo entrego – a alma olvidada,
Pendendo entre o frescor de teu perfume
E o infinito abismo de tua ausência.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Soneto - De ser parece que esqueci-me

De meu grande amigo e irmão Adriano Drummond.
http://naturainutiliarum.blogspot.com

De ser parece que esqueci-me.
E pelo Inferno dos meus olhos
(Já sei bem que castigo escolhe-os,
Certo da espécie deste crime:

Ter-me afogado no sublime),
Sentindo um qualquer perfume – óleos
De Eurídice? – viajo em regime
De abrolhos, antolhos, in-fólios.

Pedras púrpuras palmilho,
Sem Beatriz e sem Virgílio,
Assim sempre a caminhar. Mas

Para nada, nada mesmo.
Também assim, num gesto a esmo,
Achei o morto que em mim jaz.
________________________

Leonardo Ramos.

sábado, 4 de junho de 2011

Oração das 4h40 (Incompletas)

Quando, por fim, meu tosco lábio tocaria
sedento, o teu – ah, deus! –, eu não compreendia
que, como Páris, tendo em vista a bela Helena,
atrairia de altos céus a ira mais plena.

Na noite – mais iluminada do que o dia –
considerei que a dor jamais me alcançaria.
Eu não imaginei, porém, que aquela cena
tamanho ódio causaria em Atena.

Julgando justo o que era justo, adormeci
na justa paz desse pacífico começo;
mas, quando acordo, inda feliz por que vivi,

surpreso e solitário eu colho o que mereço:
o castigo de Hera, pois não a escolhi,
e que Afrodite venha reclamar seu preço.

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Braços

Quando se cai no abismo da saudade,
busca-se, em vão, lembranças a salvar:
murmúrios, odores, a suavidade
das mãos entrelaçadas, um olhar,

o falar só por falar, a vontade
de, do abraço, não mais se separar,
o riso sem motivo, a intensidade
dos braços que procuram se enlaçar.

Mas nada nos impede de cair
quando o Hades nos está a reclamar.
E, com Orfeu, nós vamos descobrir

que o mais embasbacante é constatar
que aquele amor que deveria unir
serviu, somente, p’ra nos apartar.

Leonardo Ramos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mãos

Há na separação uma tal propriedade
que, desligando aquilo que se achava unido,
constrói, num laço, um vínculo de intimidade
inteiramente novo, mas não desconhecido,

porque o pensar – esse artifício da saudade –
erige fortes contra a solidão e o olvido:
é como Psiqué guardada na soledade,
feliz mesmo na espera, alheia ao alarido.

Faz muito tempo, Zéfiro levou-te embora
aos altos montes deste amargo afastamento,
longe de mim, perdido em devaneios meros;

mas haverá uma noite e, então, uma aurora;
e, unindo nossas mãos, num descortinamento,
contemplaremos – sob o véu – a face d’Eros.

Leonardo Ramos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Lábios

Na tua ausência, sou como a criança
que sequestrou do deus a grei amada
para ganhar no Olimpo uma morada
e merecer de Zeus a vizinhança.

O gado que roubei - essa lembrança
do som encantador de tua risada -
tornou-se o meu penhor, a minha entrada
nos pátios divinais d'alegre estança.

E, se eu não mais te vir, levo, em meu colo,
a causa de ciúmes em Apolo -
teu beijo, o néctar que me soube a deus.

Mas, se voltares, te darei meus braços,
erigirei teu lar em meus abraços -
e tu não me dirás, de novo, “Adeus”!

Leonardo Ramos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Despedida órfica

Não voltarás.
Durante a fuga, eu, sofrendo saudade,
voltei meus olhos para trás.

Tu, enfeitiçada pelo deus dos mortos,
não suportaste meu olhar,
embora eu só quisesse o teu.

Adeus, metade amada de minh’alma.

Adeus.

Adeus ontem.

Adeus hoje.

Adeus amanhã,
que a falta
é uma maldição divina
que faz da despedida

uma

morte

sempre contínua.

Leonardo Ramos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Elegia

(Trilha sonora sugerida por Henrique de Souza: Elegia, by New Order)






Sol e estrelas cairão
Ao ver você partir.
Mas não será o fim.
O fim nunca virá...

O inverno vai voltar
Pra nunca terminar.
A espera não tem fim!
O inverso está em mim...

O inverso desse sol,
O inverso desse fim.
A escuridão de mim...
A escuridão em mim
Jamais terá um fim.
Jamais terá...

Leonardo Ramos.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ninfa

Eu vi no amanhecer a própria Galhardia
a figurar no ser duma mulher austera:
tinha na face o olhar da poderosa Hera,
ela emanava luz que a luz mais alvadia...

Ao vê-la se assomar, como se assoma o dia,
eu súbito senti olímpica atmosfera:
beleza e perfeição - fulgor que não se altera,
humana divinal que às eras transcendia.

E eu a cismar ali, silencioso e grave,
ouvindo o sussurar do doce mar de Atenas,
tentava capturar a cena, inquieta ave:

ela a passar; Apolo em suas melenas,
enquanto, a lhe beijar o lábio, a brisa suave
fazia estremecer d'inveja as açucenas...

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Fantasmagoria

"Por isso vão passar perante a turbamulta
Como abrupta avalanche, enorme catapulta,
Numa marche aux flambeaux, os famulentos vícios
Que cavaram no globo horrendos precipícios,
Os vícios imortais, que infestam tribos, greis,
Povos e gerações, seitas, templos e reis
E que são como a lava obscura da cratera
Que subterraneamente a tudo se invetera."
Cruz e Sousa, O Livro Derradeiro

Sorri quando caí; porque queria
Ter alma suspendida e sem cuidado
De coisa alguma que me houvesse ao lado;
Pois era tanta a morte que subia
Que nada me haveria machucado
Enquanto eu caía.

E enquanto à minha volta eu ouvia
Os vultos de fantasmas celerados
Cuspindo e vomitando seus pecados,
A lua lhes velava a vilania.
Mas olhos não os tinha tão velados
Enquanto eu caía.

E a vertigem que então descia
Por sobre a minha mente abandonada
Deixou a minha alma apavorada;
Não digo pela fantasmagoria,
Mas pela luz que andava degredada
Enquanto eu caía.

E o tropel horrendo que crescia
Diante desta face atordoada
Soava-me imensa gargalhada,
Tal qual Satã gozando em uma orgia...
E avançava a horda arreliada
Enquanto eu caía.

Fantasmas! Quem talvez se lembraria
Do vosso rosto humano delicado
Ao vê-lo assim, assaz desfigurado,
Atrás de diabólica histeria?
Que anjo mal vos houve aprisionado
Enquanto eu caía?

Leonardo Ramos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Olhos

Toda era plena a luz do meio-dia,
e um ser angelical juntou-se a mim.
Então, a luz do sol me parecia
se encarcerar no olhar do querubim.

E, de repente, tudo o que eu sabia
era o perfume doce do jasmim
e a bem-aventurança da harmonia
de arcanjos a brincar pelo Jardim.

Não lembro exatamente o que dizia,
mas lembro seu suave sussurrar...
Sem perceber que o tempo se esvaía

enquanto eu contemplava aquele olhar
– intenso como o de Hera! –, eu não sentia
quem cativou o sol me cativar.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Razão

Não é por teu olhar iluminado,
tua tez suave, ou tua face amena,
por me doares tua voz serena
ou mesmo por teu corpo imaculado;

nem por estares onde tenho estado,
nas vivas cores das melhores cenas,
no beijo que alivia minhas penas,
no enleio que me cerca de cuidado.

Se dizem que, no amor dos corações,
não há sequer a sombra do bom senso,
se é tão contrário a si, como em Camões,

no meu amor, adiro a tal consenso:
pois mesmo havendo todas as razões
para te amar, toda razão dispenso.

Leonardo Ramos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

música

certa luz que me aclara
nesses olhos teus
um dia cinza de silêncio
por sobre nossas cabeças se abre
mas tu és uma gota
que vai descendo sobre a face minha
até ferver meu peito
e gelar minhas mãos
não quero vibrar teus tímpanos com o movimento
de meus lábios
quero tanger cordialmente a corda do teu coração
com aquela música quente que salta
da minha boca
e molha a tua
e escorre pelos teus olhos que me matam
sem querer

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Estrangeiro

Minha cabeça dói. É por lutar
a ver se alcanço em mim qualquer lembrança
da terra que seria minha herança,
do sítio onde devia ser meu lar.

Meu pensamento é pássaro a voar;
a mente é campo de desesperança
no qual há um pinheiro sem pujança,
onde essa ave insiste em não pousar.

Talvez seja demais, mas me angustia
sentir-me tanto, e tanto deslocado
que, mesmo estando exposto à luz do dia,

não posso ter jamais iluminado
razão alguma que me explicaria
o que me trouxe aonde eu tenho estado.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Saudade

(Trilha sonora obrigatória: My Foolish Heart, by Bill Evans)



Saudade é como a areia da ampulheta:
No mesmo instante em que preenche um vazio
Cria outro.

É como o assobio do vento
Num fim de tarde frio,
Quando cada barulho parece um murmúrio.

É como a sentinela sobre a torre:
Atende a cada ruído
Na esperança de que seja alguém.

É como o eco de um caudaloso rio
Correndo nas entranhas de um labirinto
Sem dele jamais sair.

É como ser devorado pelo deus
E continuar vivo
Para voltar a ser devorado.

É como no mito de Orfeu:
Eurídice está ali,
Mas pode desvanecer num olhar.

É uma ausência presente,
Uma solidão acompanhada,
É como ver quem não se pode ver.

Leonardo Ramos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mímesis




Ando vagando neste labirinto,
ao qual pertenço, desde que nasci.
Tem sido meu grilhão e minha casa,
e minha salvação e danação.

Ali me assiste horrendo Minotauro,
que dei à luz como meu companheiro.
Ele me nutre de meu próprio sangue,
da carne que acabou de me arrancar.

A cada encontro a besta me sugere
que sou o labirinto em que me perco,
a minha própria pedra de tropeço,

sou estes muros contra os quais me bato,
sou a vertigem a rondar meus olhos,
sou o monstro que me há de devorar.

Obs.: Este poema recebeu o prêmio de segundo colocado no Concurso Literário "Flor do Lácio", do Sitraemg, em 2008.

Leonardo Ramos.