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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Machado de Assis e a perda da inocência - Prólogo




Caros visitantes,

Este albergue foi criado para que eu pudesse compartilhar com os peregrinos minhas experiências estéticas desta vida - que, afinal, é o único sentido possível para ela. Nesse intuito, eu tento respeitar o fato de que todos temos vidas corridas, e de que nem sempre temos paciência para ler textos enormes.

No entanto, desta vez extrapolarei esse zelo para colocar aqui um texto meu que me é muito importante.

Machado de Assis é o principal escritor de prosa brasileiro, para mim. O maior deles, na minha opinião. E meu interesse artístico-literário deve muito ao bruxo do Cosme Velho, porque foi através dele que descobri que a arte, muito mais do que caminho de expressão, é possibilidade de síntese da vida.

Quero dizer, então, que publicarei aqui, em alguns capítulos, para tornar a leitura um pouco mais fácil, um texto que escrevi para um concurso da Prefeitura de Belo Horizonte que se intitulava "Ensaios Universitários". No seu primeiro ano, esse concurso homenageava Machado de Assis, por ser seu centenário de morte (2008). Eu aproveitei a oportunidade de compartilhar meu entusiasmo por sua obra ao mesmo tempo que eu sabia - modéstia às favas - que poderia escrever um bom texto, dado o meu envolvimento com essa mesma obra literária.

O tal texto me rendeu o segundo lugar - outra vez! - no concurso, cujo prêmio foi R$ 1.500,00 em forma de cheque-livro. Como podem imaginar, consegui "engordar" bastante minha tão-amada biblioteca.

Se for possível, então, caros amigos, acompanhem essas postagens. Com ele eu dedico este sítio ao maior escritor brasileiro. Ainda deixando a modéstia de lado, o texto é um dos poucos meus com os quais eu me sinto completamente à vontade, sem aquele sentimento de arrependimento que me envolve na maioria das coisas que escrevo.

Amanhã, então, postarei o primeiro capítulo. Espero que gostem tanto deste texto quanto eu.

Abraços,
Leonardo Ramos.

Machado de Assis e a perda da inocência (I)




Dom Casmurro chegou-me às mãos quando eu tinha apenas treze anos. Nessa época, pode ser que eu me identificasse menos com aquele narrador um tanto ácido e desiludido do que com o poeta do bonde que lhe dera o apelido. Eu respirava ares de adolescência romântica, que duraram até meus vinte anos, ou um pouco mais; com Álvares de Azevedo eu consumia os dias em fogosas visões de pálidas virgens, lânguidas, vaporosas, fantasmáticas, que, como em todas as paixões idealizadas, em nada correspondiam àquelas menininhas tão cheias de vida com quem me apaixonava.

Eu escrevia, e escrevia poemas mais românticos que o próprio Romantismo, se é que isso era possível. Eu não podia, então, entender muito daquela ironia, aquele "movimento ao canto da boca" que rondava as páginas do romance. Muito do que se lê faz reverberar na alma as vivências passadas, e ali não havia assim tanto passado. No entanto, a leitura foi prazerosa. Ao fim do livro, restou-me um certo sentimento vago, uma melancolia estranha que, segundo eu pensava, não poderia vir de uma obra realista.

Giremos depressa os ponteiros do relógio: eis-me com vinte e cinco anos. Idas e vindas, seminário franciscano, uma tentativa abortada de estudar as Letras, trabalhos aqui e acolá, muitos amores platônicos e dois bastante reais trouxeram-me a essa idade, quando eu me reencontrei com Bentinho. Já não era mais o adolescente romântico; a filosofia havia me desiludido bastante, mas não mais do que a vida o fizera. Senti que lia outro livro: Bentinho entrou-me a parecer muito mais esperto do que da primeira vez. Ele não me soou mais como um menino ingênuo, tragado pelo amor sem poder se defender da ressaca dos olhos de Capitu; mas como um advogado engenhoso, perspicaz, que me conseguira convencer na primeira leitura de que ele era a vítima naquela história.

Depois veio o Quincas Borba. O mundo, que parecia girar em torno da minha existência romântica parou. De repente, eu me dei conta de que o homem é que gira em torno deste mundo que, segundo Schopenhauer, é vontade, desejo eterno e, por isso, insaciável. A inocência se perdera; a adultez chegara e, com ela, o ceticismo. Mas permaneceu comigo aquela melancolia que assomaba do fundo de toda ironia machadiana. Após o riso causado por ela, os lábios voltavam ao normal, e o gosto amargo permanecia na boca.

Mas de onde viria essa melancolia? Brás Cubas deu-me a pista: "Trata-se de uma obra difusa, (...) não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio." Lendo as suas memórias póstumas, tive a confirmação daquela tristeza miúda, suave e quase imperceptível que me pedia humildemente licença para se achegar um pouco mais quando eu lia Dom Casmurro. E foi exatamente no capítulo em que Brás Cubas se encontra com seu antigo companheiro de colégio, o Quincas Borba, que me veio a confirmação. Antes, porém, de encontrar o filósofo do Humanitismo, Cubas havia visto um outro colega, que era ministro, e a ideia de se tornar um ministro também lhe ocupa o pensamento: "Recordei aquele companheiro de colégio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que não seria eu como ele". Instantes após, esbarra com Quincas, que lhe deixa uma impressão ruim e que, no capítulo posterior, se despede de Cubas com um abraço. Eis a cena esclarecedora: "E dizendo isso, abraçou-me com tal ímpeto que não pude evitá-lo. Separamo-nos finalmente, eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abraço, enfadado e triste. Já não dominava em mim a parte simpática da sensação, mas a outra. Quisera ver-lhe a miséria digna. Contudo, não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo..."

É a constatação da idade adulta. Invariavelmente, os adultos relembram-se da fase de criança/adolescente com uma nostalgia desbragada, quando, em crianças, queriam somente crescer. O amadurecimento é, para as crianças, a conquista da liberdade. Mas, conquistando-a, querem voltar à meninice. Por quê? Justamente porque, quando se chega à "maturidade", a liberdade entra a ser um volume descomunal, incômodo, que não se deixa carregar em seu peso insuportável, que não se pode guardar num armário ou esconder embaixo da cama. Ela só estorva. O que fazer com ela, então? É preciso usá-la, mas não sabemos como...

Ficamos com a impressão de que a liberdade é um presente de grego. Ela traz, dentro de si, qual Cavalo de Troia, a nossa própria destruição. Parece-nos um paradoxo: somos livres, e essa liberdade nos aprisiona. E não é disso que trata o conto "Igreja do Diabo"? O homem, escolhendo Deus, escolhe a bondade. No entanto, sub-repticiamente, pratica a fraude, a opressão, a mentira e tudo o mais; vem o Diabo, pregando a sua doutrina, prometendo ao homem todos os prazeres: ei-lo convertido à igreja de Satanás. Mas, às escondidas, pratica a caridade. É possível entender? "Que queres tu? - diz Deus - é a eterna condição humana".

E a eterna condição humana é pender entre o desejo, essa necessidade imperiosa, e a liberdade. É o Humanitismo, uma mistura extraordinária de pessimismo schopenhaueriano com darwinismo social. Ele resume a eterna busca humana não só pela sobrevivência, como também pela ânsia de reconhecimento, de glória e de aplausos: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas." A ironia e o cinismo contidos nessa frase, nesse lema do Humanitismo é a marca de Machado nos seus três romances mais celebrados: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, como nos contos de Papéis Avulsos.