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sábado, 5 de janeiro de 2013

Tiraram-me o meu amado. Tiraram-me tudo. Os deuses me tiraram tudo. Levaram-no para longe dos meus braços, dos meus dedos, da minha boca, dos meus seios. Aonde voltarei meus olhos? Onde descansarei minha cabeça? Tenho-a recostada ao muro desta casa. Que já não é mais casa, já não é mais nada, é só uma pedra de formato estranho e oca, vazia.

Oca. O eco do teu nome ressoa no interior. Preso lá dentro, jamais chegará aos teus ouvidos, para que voltes, mas somente aos meus, para que eu lembre. Esqueço-me. Volto a me lembrar. Olvido. Perdida. Medida sobre medida. Pedra sobre pedra. Amores-perfeitos rodeiam esta pedra fria. Com a maior alegria, pisoteei-as todas. Sufoquei-as. Murcharam. Morreram. Tirei-lhes a vida. Como tiraram os deuses a minha.

À míngua. Quatro dias sem dormir, cinco dias sem comer. Eu sei que eu não devia, mas não consigo não pensar. Não paro de imaginar as muitas mulheres que os deuses devem ter colocado em seu caminho. Caminho de um lado para o outro. De um canto ao outro canto da pedra morta. E paro. Paro ao canto rouco da porta entreaberta. Torta, empenada, enferrujada, inútil. Inútil tentar quebrá-la aos murros. Inútil gritar teu nome dentro desta pedra fria.

Teu nome some pelos ares e volta. Volta assobiando pela porta entreaberta, e me desperta do meu pesadelo. E os meus cabelos, longos, na minha boca aberta me engasgam e me sufocam e me lembram a lã de ouro de que foste atrás. Lã? Será que eu estava sã quando partiste? Eu sei que eu não devia acreditar em tudo o que me dizem. Eu não devia acreditar em deus que não existe. Eu não podia me fiar na volta que prometeste. Eu não devia mais sobreviver quando partiste. Eu não queria mais este corpo que não é teu, nem meu, nem de Afrodite.

Meu corpo agora jaz na pedra fria.

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Leonardo Ramos.

domingo, 29 de julho de 2012

Caverna

Este é o terceiro dia que estou nesta caverna. Aqui não há nem uma nesga de luz do sol. A escuridão é plena e profunda. E, no entanto, eu enxergo bem.

Estou aqui porque, lá fora, desde que eu alcancei este monte, fugido de onde eu vivia, há uma águia prestes a me devorar. Cá dentro, há outros animais, mas eles, até agora, não me fizeram mal algum. Cobras, morcegos e ratos me fazem companhia. Animais cegos ou quase, mas que se saem muito bem nas trevas, enquanto aves de rapina como a águia não sobreviveriam nessas condições por muito tempo. É interessante: a luz não nos ajuda a enxergar. Quanto mais luz, menos visão.

Você tem uma visão muito pessimista da vida, a minha amada me dizia sempre. Que eu via o mundo em tons muito obscuros. Que não me abria para a esperança. Segundo ela, o mundo não era assim. Segundo ela, havia nos homens uma inclinação natural para o bem. O que havia de escuro neles poderia ser redimido se fosse bem iluminado. E vinha com vários exemplos, os quais não lembro - nem sei se os escutava. Ao final, eu dizia, sempre - você, meu bem, é minha esperança. Eu dizia também, sempre, que, quando o homem saiu da caverna, ele recebeu dos deuses um presente, uma caixa. Dentro dela havia a inteligência. A esperança, porém, não estava lá, porque os deuses não sabem o que é isso. Um deus não precisa esperar por nada, não há tempo para imortais.

Para os mortais, sim, há um tempo. E ele é inexorável.

Ela, então, com seu sorriso encantador de sempre, replicava que eu havia caído em contradição. Se eu já havia dito que ela era minha esperança, como eu poderia depois afirmar que os deuses não haviam criado a esperança? Eu sorria e dizia que não havia sido contraditório. Não foram os deuses que criaram a esperança. Fui eu. Ela gargalhava e me chamava de megalomaníaco. Mas eu não sou megalomaníaco. Nunca quis ser um deus nem tenho vocação para ser herói. Meu ódio não permite um ato de heroísmo.

O ódio não cega como dizem. O ódio, assim como a escuridão, ajuda a enxergar melhor. Por exemplo: o ódio do homem que matou a minha amada o fez preparar tudo com cuidado, fê-lo ver tudo com antecedência. Ele a observou por muito tempo. Sabia de sua rotina, de seus gostos, de seus medos. Sabia que era ela a minha esperança. Sabia que era ela todos os meus tesouros, toda a minha vida. Sabia que era ela todo o meu sorriso e o meu bem.

Meu bem - eu dizia a ela, sempre -, o que há de mais humano é o ódio. Os animais não sentem ódio. É preciso ter inteligência para odiar. Eles sentem fome ou medo. O ódio é um sentimento, um sentimento que consome como uma chama. O ódio, eu dizia, é como uma fogueira dentro de uma caverna: ela ilumina e faz com que saia todo tipo de animal pestilento e peçonhento, como cobras, morcegos e ratos. E é só nesse tipo de iluminação que eu acredito. Ela, então, olhava para mim, com seus olhos hipnotizantes, e se dizia triste com isso. Eu sorria e a beijava.

O homem que a matou também a beijou. Ele a amava. Mas não foi o amor por ela que venceu. Foi o ódio por mim que o levou a trucidá-la como fez, sem misericórdia alguma. Porque ele sabia muito bem que era ela todos os meus tesouros. Antes odiar-me que amá-la. Esse ódio, provavelmente, o fez feliz, ainda que por pouco tempo. Sobre ela - na verdade, sobre mim -, ele despejou toda a sua pestilência, toda a sua peçonha, todo mal que havia dentro de si. E isso ficou bastante claro no corpo da minha amada. Quando eu entrei no cômodo em que seu corpo jazia, eu busquei um pouco de luz. Antes fosse cego. Junto ao seu corpo desfigurado, estava também o dele. Não tive outra reação senão a de correr. Deixei os corpos como estavam e fugi.

Eu poderia despejar meu ódio sobre meu próprio corpo, mas não quero me igualar a ele. Eu gostaria de poder fazer meu ódio subir aos céus como uma chama, votado inteiramente contra os deuses, mas eles não existem. Eu queria ser o próprio Lúcifer, o próprio fogo do tártaro, estalando de ira, pronto a sair do fundo das cavernas infernais para caçar os malditos deuses e, um a um, fazê-los sofrer por bastante tempo, até que implorassem por misericórdia. Mas não há tempo para imortais. Tampouco há deuses. E para os mortais, não há esperança. Há somente o tempo, inexorável.

Esta noite, acenderei uma fogueira nesta caverna para que saiam as cobras, os morcegos e os ratos. Criarei meu próprio deus, todo cheio de bondade e misericórdia, e eu serei seu rival, seu perfeito oposto. Eu lutarei contra ele com todo o meu ódio, por razão alguma, e serei vencido. E amanhã sairei também eu da caverna e entregarei meu corpo à águia que ele enviará para que eu seja devorado.

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Leonardo Ramos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Promessa

(Trilha sonora sugerida: Elephant, by Damien Rice)



Muitas vezes eu disse a mim mesma: isso vai acabar. Apesar das promessas, apesar das palavras, apesar do amor, apesar da presença.

Na realidade – o que é a realidade? – eu nunca acreditei que fosse acabar. Porque, se se pensa no que se vai fazer quando o mel acabar enquanto ainda se suga o favo, não se aproveita a doçura e não se resolve a amargura do depois. A amargura do depois não se resolve, mas a doçura do agora se perde muito fácil.

Em todo esse tempo em que estivemos juntos, os melhores momentos foram ao seu lado – ou à sua espera, o que dá no mesmo. Porque sua presença acontecia também na promessa. Porque o penhor dessa promessa era seu corpo, que eu ainda adoro.

Adoro – e sei que muito mais do que ela. Porque eu sempre vi como ela o trata. Não é nada grosseiro, não é nada de desprezo, mas não é amor. Porque o amor consome, disso eu sei. O amor faz sentir como se tivesse carregado um fardo pesado. Emendo-me: o amor faz carregar fardos pesados.

E o fardo pesado era seu corpo, que me consumia. Em todo esse tempo em que estivemos juntos, eu estive com outros homens. O sexo era bom, mas não me consumia. Ao fim, eu estava lá, eu era a mesma, sempre eu. Com você, eu me consumia. Era como uma vela. Eu me iluminava e me consumia. E era bom.

O amor tira o brilho dos seus olhos justamente por deixá-los brilhantes. Não quero ser repetitiva, mas é como a vela: é por iluminar que ela perde a própria luz. Ou, para mudar de metáfora, como a represa: é por se guardar que ela gera força. Não, isso é um outro exemplo... Não tem nada a ver.

Mas ela, não. Ela gosta de você, como se gosta de um amigo muito próximo. Ela é feliz com você! Não se pode ser feliz quando se ama. Não se pode. Eu não fui feliz. Eu não queria ser feliz. Eu queria você. Eu queria ser você. Eu queria me esquecer. Eu queria deixar de existir. Algumas vezes eu consegui.

Ela é mãe de seus filhos. O amor não gera vida. Não pode gerar. O amor é morte em cada despedida. Uma morte sem ressurreição, mas uma morte repetida. Essa balela de que a semente tem de cair na terra e morrer para dar frutos. Bobagem. A vida é um caminho para a morte, sempre. Estou me perdendo nos meus pensamentos... não sei o que estou dizendo.

Enfim, acabou. Você se foi com sua família. Eu continuo me deitando com outros homens, mas, como sempre, no fim, estou sempre eu mesma, intacta, esperando ser consumida. Porque se a gente caminha para a morte, não vale a pena se economizar.

E, veja!, eu nem queria me casar com você. Eu nem queria exclusividade. Eu não queria ter filhos com você. Eu não queria ter uma casa com você. Eu queria meu corpo em você. Eu queria me acabar em você. Eu queria morrer nos seus braços. Como muitas vezes morri.

Existe agora um barulho na minha cabeça, que é todo esse desejo, essa represa insana querendo vazar, querendo jorrar e se acabar, e destruir tudo em seu caminho, e destruir você, e evaporar... Mas, acabou. Você não está mais aqui. E eu continuo aqui, sempre eu mesma, sempre eu mesma sem você.

E essa ausência não vai se acabar. Porque não há mais penhor para as promessas. Não há mais promessas. Não há mais fogo para a vela. E ela não se consumiu toda. Ficou pela metade, torta, deformada.

Em todo esse tempo em que estivemos juntos, eu costumava fazer longas caminhadas solitárias no fim da tarde à beira da lagoa – ela não é natural, você sabe. Ela é um buraco com muita água represada dentro. Mas não era isso que eu queria dizer... Eu costumava fazer longas caminhadas solitárias no fim da tarde à beira da lagoa pensando na sexta-feira, no momento de reencontrá-lo. A imaginação não era muito fértil, a cena era sempre a mesma. Mas eu não era. Eu era sempre menos eu, cada vez menos eu.

Ainda faço minhas longas caminhadas à beira da lagoa, e elas continuam solitárias, continuam sendo no fim da tarde, mas agora o que me resta é relembrar. E relembrar não é bom, porque não há penhor, porque não há promessas. E relembrar consome as lembranças. E elas vão se esmaecendo na memória, e elas vão mudando, e já não se sabe mais o que é real e o que não é. E o que é a realidade? E isso é como aquela velha foto que, ao passar do tempo, vai perdendo a nitidez e ganhando sujeiras e intromissões que não faziam parte da cena inicial. Não, esse também não é um bom exemplo. É como a vela que se consome. Mas não quero ser repetitiva.

Nem me importo com a felicidade dela. A realidade é que eu não queria ser feliz com você. Não se pode ser feliz quando se ama.

Mas há uma dor que não acaba, por falta da promessa e do penhor, que é seu corpo, que eu adoro. E essa dor também não me consome. E no final sou sempre eu, eu mesma, sempre eu mesma sem você. Como a vela.
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Leonardo Ramos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Revisor

Sentou-se diante da folha em branco. As ideias estavam em sua mente, mas a distância entre seu crânio e sua mão parecia tão grande que era impossível transformar o pensamento em palavra escrita.

“Faça-se a luz, Deus disse. E a luz se fez”. Lembrou-se dessa página bíblica e pensou que ele também poderia ser um tipo de demiurgo. Se Deus criara o mundo pela palavra, talvez ele pudesse dar à luz um texto. “Se eu tivesse sete dias, talvez eu conseguiria... Talvez”, pensou. Na verdade, ele tinha apenas sete minutos. Sete dias para Deus, que, segundo a crença judaico-cristã, sempre existiu e sempre existirá, devia equivaler a sete minutos para ele. Mas não, ele não queria ser Deus, nem mesmo um seu discípulo. Se Deus é um escritor, não deve ser dos melhores. Deve escrever, como diz o ditado, em linhas tortas.

Este último pensamento o desgostou sobremaneira.

- Não, eu não quero ser Deus, nem seu discípulo. Mas eu me candidataria à vaga de seu revisor.

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Leonardo Ramos.

Obs.: Texto escrito como parte de uma prova para revisor freelancer numa editora.

terça-feira, 22 de março de 2011

Verdade (quatro pequenos contos sobre a vida)

Um dia, cansou-se de segurar o mundo e a vida que havia nele. Seus braços cederam ao cansaço; a coluna, que sustentava aquele enorme peso do passado, do presente e do futuro, dobrou-se; as pernas, que o mantinham de pé, perderam o vigor. E ele morreu esmagado sob si mesmo.
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Um dia, cansou-se de correr. Andava vagando havia anos; entre um local e outro, jamais parava para descansar; nunca volvia os olhos para apreciar a vida ao redor; nenhuma vez permitiu que a mente descansasse no frescor da brisa matutina; ninguém, em tempo algum, ouviu-lhe a voz. Deixou-se morrer no meio do caminho.
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Um dia, cansou-se de carregar pedras. Trabalhava naquilo desde sempre; toda vez as levando do pé do monte ao cimo da montanha, e sempre encontrando mais pedras para transportar. Parecia-lhe um serviço inútil, infinito, cansativo, sem nenhuma consequência prática na vida de ninguém, especialmente na dele. Numa tarde comum de trabalho, uma súbita avalanche espantou seus companheiros, mas ele não quis fugir.
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Um dia, cansou-se de atuar. Todas as noites, sobre os palcos, dava vida a um personagem diferente, e era aclamado por todos. De volta à sua casa, a solidão, a sujeira, os ratos, a fome e o frio o recebiam, mas ele não sabia qual personagem era acolhido. Não podia mais discernir o real do sonho. Na última vez em que subiu ao palco, representou o monólogo de um suicida. A faca era de verdade, o sangue era de verdade, a agonia era de verdade. A plateia aplaudiu de pé a performance.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Casa

Acordaram com um grito alucinante de dor e desespero rasgando o silêncio da madrugada. Prontamente de pé, pai e mãe correram ao quarto do filho, de onde vinham os barulhos do grito e dos objetos caindo ao chão. O rapaz estava se debatendo, histérico, esfregando as costas no chão, na parede, enfim, onde era possível. Os pais tentaram segurá-lo, mas era impossível. O rapaz parecia ter a força de um touro raivoso.

Desesperados, tentavam se comunicar com o filho, mas ele apenas gritava e gritava, e se debatia. Em pouco tempo a casa estava cheia de gente, que procurava saber o que estava acontecendo. Dez homens, eu disse dez homens foram necessários para segurar o rapaz, enquanto alguém lhe ministrava um entorpecente.

Quando ele desmaiou, então, reergueram a cama e o deitaram ali. O quarto estava praticamente destruído. O menino, já nu, tinha marcas de hematomas e cortes por todo o corpo. Seu rosto estava contorcido de dor. Dédalo não conseguia mais reconhecer o filho, tão machucado e desfigurado estava. Inconsolável, ele e a mulher choravam, enquanto as pessoas que estavam por ali trataram logo de procurar um médico.

O doutor examinou o rapaz. Encontrou em suas costas duas protuberâncias, mais ou menos na linha do ombro, uma de cada lado da espinha dorsal, que julgou serem tumores. Segundo o médico, eram elas que estavam torturando o filho de Dédalo. Recomendou aos pais levarem o rapaz para o hospital, para que ele fosse operado o mais rápido possível.

Uma procissão acompanhou o traslado do menino e, chegando ao hospital, montaram guarda na porta.

Por ser ainda uma hora avançada da madrugada - em torno de 4h -, ele foi levado a um leito, onde ficaria aguardando a preparação da cirurgia. Enquanto isso, era tratado em seus ferimentos. A mãe e o pai atendiam de pé, próximos ao leito, com o olhar confuso e perdido, e com a alma cheia de dor e angústia.

Estando tudo pronto para a intervenção cirúrgica, eis que o menino começa de novo seu balé macabro. Desta vez, deitado de bruços, com as unhas, tentava retirar aqueles dois volumes estranhos das suas costas, rasgando a pele com tal violência que os ossos da coluna estavam ficando expostos. No hospital, porém, uma nova sedação chegou rapidamente, e o rapaz caiu novamente no torpor.

Com a pele rasgada, o médico pôde ver que aquilo que ele julgava serem tumores eram, na verdade, asas.

Trouxeram logo os instrumentos. O médico pediu aos pais que se retirassem.

Não havia outra maneira de retirar aquilo. Eram ossos de uma asa em formação. Já sabendo que a cirurgia seria extremamente dolorosa para o rapaz, e que, num novo acesso de dor lancinante, ele poderia dificultar a intervenção, o médico mandou que lhe atassem mãos e pés e que prendessem seu tronco no leito, e o leito, no chão. Aplicaram nova sedação. O médico sabia não ser suficiente, mas sem ela seria impossível.

Assim que começaram a serrar as asas, como previsto, o rapaz voltou a se debater. No entanto, não era possível mexer demais. Estava bastante preso, os braços e as pernas totalmente esticados. Os gritos ecoavam. O médico, preocupado com o menino, tentou terminar o mais rápido possível. Em menos de meia hora, aquelas duas asas estavam serradas e a pele, suturada.

O menino permaneceu no hospital por cerca de três semanas, recebendo tratamento em seus ferimentos - agora com alguns ossos deslocados, da tentativa de se libertar das amarras durante a cirurgia - e sendo observado. Os pais estavam um pouco mais pacificados após a operação, mas ainda preocupados com o filho. O menino, de dezesseis anos, chorava o tempo inteiro, não da dor das asas ou dos ferimentos. Um choro magoado, de um outro tipo de dor, menos empírica.

Dédalo tentava conversar com ele, contando sobre os novos projetos arquitetônicos que deveria fazer, mas o rapaz, quando não chorava, parecia distante, não dava nenhum tipo de resposta.

De volta a casa, ele ficava recluso ao quarto. Comia pouco. Falava menos. Não queria ver ninguém além dos pais. Aquela intensa melancolia fez com que Dédalo chamasse os amigos do filho, a ver se conseguiam fazer com que ele se animasse um pouco. Eles foram e, diante da incômoda insistência do pai, o menino saiu com eles.

Não tinha a mínima possibilidade de brincar. Então, sentaram-se todos na praça, e perguntaram ao rapaz o que havia acontecido aquela noite. Ele contou o fato de que estavam nascendo asas nele. Foi uma gargalhada geral. Asas? Então ele tinha virado o quê? Uma galinha? Pediram-no que imitasse uma. Alguns se levantaram e começaram a arrastar o pé no chão, como se ciscassem, e abanavam os cotovelos emitindo os cocoricós. Outros se contorciam de rir. Outros ainda o mandavam se esconder do granjeiro. O menino chorava.

Voltou sozinho para casa. Fechou-se no quarto, e só sairia de lá na semana seguinte, quando, outra vez, seu grito horrendo varreria o sono de seus pais.

Outra vez, as asas. Outra vez o entorpecimento e o médico. Este disse não poder fazer a mesma cirurgia de novo. Estava claro que aquele não era um problema comum de saúde. Não fazia sentido serrar as asas toda vez que aparecessem. Sugeriu, por isso, interná-lo num outro tipo de hospital, onde pudesse receber medicamentos para que não sentisse tanta dor. Onde ficasse mais calmo.

Os pais não titubearam. Não conseguiam lidar com a situação. Foram apoiados por todos. Era o melhor mesmo a se fazer. Ele ficaria bem. Levaram-no para ser internado. A fim de evitar novos ferimentos, retiraram tudo o que podiam do quarto. Somente havia uma janela, acima uns quatro metros da cabeça, para evitar fugas. Deixavam-no nu, porque, no desespero, rasgava as roupas. E, após as 20h, ficava amarrado, braços e pernas esticadas, o peito contra a parede alcochoada.

Em quatro meses, a asa estava completamente desenvolvida. Já não sentia mais dor por conta disso. Somente aquela da saudade. Saudade de quê? Talvez não soubesse dizer, talvez nem fosse saudade de algo real ou concreto. Não era de casa, com certeza. Nem dos amigos. A saudade que sentia fazia com que ele quisesse alcançar o céu. Talvez seja essa saudade que impele os pássaros a voar, pensou alto em sua cela.

Um dia, olhando o alto da janela, quando a tarde acabava, viu uma revoada de pássaros passando. Pensou talvez que aquilo fosse liberdade. Num movimento desajeitado de bater de asas, esbarrando em todos os lados, empoleirou-se na janela. O vento acariciou-lhe a nudez. A lua, nascendo junto com a noite, o encantou de tal maneira, que ele se esqueceu de tudo, de toda dor, de todo sofrimento, de toda solidão. Eram só ele, nu, e a noite, nua. Entrando na cela para o acorrentamento noturno, viram-no na janela. Gritaram. De um lado e de outro, as pessoas acorreram. O rapaz saltou e, ainda inexperiente, alçou seu primeiro e último voo.

Buscando sempre o alto, ele viu que, bem de longe, sua pequena cidade parecia um labirinto. Não conseguiu reconhecer sua casa naquele desenho estranho. Parou de olhar para baixo, voltou os olhos para a lua. Ele voava em direção a ela, mas ela jamais se aproximava dele.

Aos poucos, foi sentindo mais frio, mais falta de ar. Estava cansado de voar, a vista começava a escurecer. Mas isso não importava, estava livre. Estava feliz. Estava em casa.

Seu corpo foi achado quatro dias depois, a poucos quilômetros de casa.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Espelho

O fantasma de seu pai apareceu. Não fazia ainda três horas que o havia enterrado. Passara todo o velório pensando que, não fosse o ataque cardíaco fulminante, ele o teria matado com as próprias mãos. Mal conseguia conter-se na vontade quase incontrolável de atirar o caixão ao chão com toda a força de seu ódio e, tomando o cadáver pela cabeça, batê-la repetidamente no chão, até que conseguisse cavar ali mesmo o buraco onde jogaria o corpo de seu pai.

O fantasma de seu pai apareceu, e antes que ele pudesse gritar “covarde!”, as mãos fantasmagóricas, com uma força não-natural, agarraram-se a seu pescoço, impedindo completamente sua respiração. Mas nem isso ele conseguia perceber, tão grande era o ódio e a vontade de matar o fantasma de seu pai. Erguendo-se da cama onde estava deitado num movimento frenético e violento, tentou alcançar o rosto do fantasma de seu pai, em vão. Os golpes zuniam pelo ar, e numa dança macabra, ele se debatia incontrolavelmente, nem tanto pelo sufocamento, mas pela vontade incontrolável de matar o fantasma de seu pai.

O fantasma de seu pai mantinha as mãos firmes em seu pescoço e o olhar impassível, como sempre tivera. Na verdade, seu pai era um homem resolvido. Sofrera bastante com a morte da mulher, que se suicidara na noite de seu aniversário de trinta e três anos, com veneno que ela mesmo preparou para si, numa taça de vinho tinto caríssimo, logo após ter brindado à saúde de seu marido aniversariante. No entanto, ele prosseguiu a vida, criando seu filho único com carinho e devoção. Quase nada fazia seu pai perder a calma. Era irônico como o filho, sim, era irascível e violento como uma besta, como um urso de três metros de altura provocado por horas a fio. Uma besta que, inutilmente, tentava matar o fantasma de seu pai.

O fantasma mantinha o olhar impassível e as mãos firmes sobre o pescoço dele, e sua serenidade contrastava com o ódio do filho. Estranhamente, ele sentia esse ódio por seu pai desde os dez anos, desde que sua mãe havia morrido. Quando chegara o dia de seu próprio aniversário de quarenta anos, com vontade resoluta, invadira o quarto de seu pai, logo ao amanhecer, com a intenção de o matar sufocado. Não pôde conter sua ira ao ver que seu pai havia morrido em algum momento durante a noite. O criado impediu que ele agredisse o cadáver de seu pai.

Contudo, o fantasma de seu pai estava a pouco de o estrangular. E não havia ainda três horas que o enterrara, tentando controlar seu ódio por vê-lo morto antes que ele mesmo o matasse. A briga seguia. Os golpes cantavam quando varavam o ar ou quando acertavam a mobília. Suas mãos estavam sangrando. Já estava a poucos instantes de morrer sufocado. No entanto, os movimentos violentos que fazia seriam capazes de deslocar os braços do fantasma de seu pai, se isso fosse possível. Mas, então, ninguém ainda ouvira falar que um filho tivesse conseguido deslocar os ossos dos braços do fantasma de um pai.

E o fantasma de seu pai o jogou contra a parede com tal força que o barulho foi ouvido pelo criado, que ficou de ouvidos alertas a fim de ouvir se o barulho se repetiria ou se fora sua imaginação. E lá estava o homem, oprimido contra a parede pelo fantasma do próprio pai, enquanto tentava gritar “covarde!” e o matar. Interessante, desde os dez anos tinha vontade de matar seu pai. Mas nunca tivera essa coragem, até o dia de seu aniversário de quarenta anos, quando, com vontade resoluta, invadira o quarto de seu pai, encontrando-o, todavia, já morto. Quanta frustração encontrara naquele quarto mórbido! Isso o podia ver nos seus olhos já vermelhos e saltando das órbitas o fantasma de seu pai, que mantinha o olhar impassível e as mãos firmes sobre o pescoço dele.

No seu último desesperado movimento na tentativa de matar o fantasma de seu pai, o homem correu, de uma parede a outra do enorme quarto, como se quisesse jogar o fantasma de seu pai contra a parede. Engraçado, nesse momento ele se lembrou de um passeio, poucos meses após a morte de sua mãe, que se suicidara na noite do aniversário de seu pai, logo após fazer um brinde à saúde dele, com uma taça de vinho tinto envenenado que ela mesma havia preparado. No passeio, num pequeno momento de descuido, ele se perdera de seu pai. Pouco mais de três minutos se passaram, mas para ele foram quase trinta anos. Quando ele reencontrou seu pai, correu e pendurou-se ao seu pescoço, chorando, beijando-o e pedindo que não o deixasse sozinho nunca mais. Seu pai mantivera o rosto impassível e, num abraço terno, prometera que isso jamais aconteceria outra vez. Era o mesmo rosto impassível do fantasma de seu pai que ele encarava agora, segundos antes de se chocar com violência incrível contra o espelho que ficava na outra parede do enorme quarto, na tentativa de jogar contra a parede o fantasma de seu pai.

Desta vez, o criado, que estava atento a ouvir outro barulho que pudesse se repetir, se não fosse coisa de sua imaginação, ouviu claramente o estrondo amedrontador do choque do homem contra o espelho, ouviu o barulho do vidro se estilhaçando, ouviu também um estrondo, como o estrondo de um urso de três metros de altura batendo contra o armário e, por último, ouviu o barulho surdo do armário caindo sobre alguma coisa como um corpo.

Ao chegar ao enorme quarto, o criado desejou jamais ter trabalhado naquela casa, apesar de seu patrão ser um homem cortês, amável e pacífico. O filho de seu patrão estava esmagado sob o pesado armário de mogno que sua mãe ganhara para o enxoval de seu bebê. Com muito esforço, conseguiu remover o armário de cima do homem. A cena era horrível. Seu crânio estava esmagado, e a massa cerebral, entre vermelha e cinzenta, dava a impressão de uma barata pisada. Os cacos do espelho lhe desfiguraram a face, fazendo um corte desde o topo direito da testa, passando pelo olho direito, quase completamente fora da órbita e fendido, jorrando sangue e líquido intraocular, passando pelo nariz, já cianótico e quebrado, e pelos lábios, contraídos horrivelmente, como se quisessem gritar “covarde!” e não pudessem, até sua garganta, que jorrava sangue copiosamente.

Ele foi enterrado no mesmo dia de seu pai, no fim da tarde, sob comentários do criado de ter sido vítima de sua epilepsia, que, tomando-lhe o ar, o fez girar freneticamente pelo enorme quarto, esbarrar nos móveis, quebrar o espelho e, por último, desmaiar sobre o armário. Este, apesar de ser enorme e de mogno, após o choque do corpo do homem, que também era enorme e forte como um urso de três metros de altura, caiu sobre ele, esmagando seu crânio de forma grotesca. Mas, na verdade, isso era mentira. Ele havia sido assassinado pelo fantasma de seu pai, que ele havia enterrado não fazia três horas, chorando copiosamente de ódio por não ter podido matá-lo ele mesmo.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Carvalho

Quando nasceu, ninguém pôde perceber que não tinha boca. Eurídice estava transportada de felicidade de dar à luz seu primeiro e talvez único filho, dada sua idade avançada. O médico, preocupado com que o menino não chorasse, bateu bastante nele. Só então deu-se conta do fato: não tinha boca. Nunca havia visto isso antes. A ausência total de qualquer relato sobre essa doença na literatura o fez tomar uma decisão: deixar mãe e filhos ligados pelo cordão umbilical. O pequeno não poderia comer, pois não tinha boca, e o cordão serviria de acesso do alimento através da mãe.

O pai mal pôde conter sua euforia quando viu o bebê. Era a sua cara. Era, em tudo, igual a ele, menos a boca, que não tinha. Mas Orfeu não chegou a perceber que seu filho não tinha boca. Tomou-o por um menino bonzinho, que não chorava por nada, e que tinha uns olhos vivos. “É a minha cara”, repetia o pai, orgulhoso. “Vai ser carpinteiro, como eu; casar-se e ter um filho lindo, como eu”.

Pai e mãe jamais entenderam que o filho não tinha boca. Socava-lhe a mãe o seio naquele espaço contínuo entre o nariz e o pescoço onde deveria estar... a boca. Obviamente, o bebê não sorvia nada, e a mãe o julgava satisfeito. O médico lhe havia explicado que o menino nascera sem boca, mas ela não escutou. Nem mesmo enxergava o defeito no filho.

A mãe, porém, alimentava-se bastante. Sentia muita fome, e parecia jamais estar saciada. Emagrecia desde que dera a luz. Mas isso não importava. Importava o filho primeiro e talvez o único. O pai se enchia de orgulho de ver o filho “forte”, o que queria dizer gordo. Aquela criança, agora com quatro anos, pesava trinta quilos. Mas não falava. Seus pais nunca se preocuparam com isso. “É quieto assim mesmo”, dizia a mãe. “Puxou o pai...”

Com oito anos, aprendeu a andar. Era lindo vê-lo trôpego e gordo, ensaiando seus primeiros passos. Contudo, parecia não ter muito gosto por andar. Não saía de perto da mãe, e isso a enchia de orgulho. “Não pode ir a lugar nenhum sem que eu vá junto!”, dizia ela às amigas. Era assim, de fato. Mas o fato era que o menino estava ligado à mãe.

Havia outros meninos, na vizinhança, que vinham visitá-lo sempre. Mas a criança não dava muita atenção a eles. Parecia não se importar com sua presença; os meninos brincavam, corriam, pulavam, quebravam as coisas, e o menino só olhava. O pai cutucava seus amigos, dizendo: “É um observador. Vede como brinca: brinca de estudar os amigos...”.

Na verdade (preciso dizer), ao menino não fazia sentido algum a fala. Não causava nele nenhuma impressão. Ele escutava, mas era tudo barulho. De fato, a única coisa que ele percebia era que aquelas pessoas eram parecidas com ele, exceto por aquela abertura esquisita entre o nariz e o pescoço. Nele, havia apenas um espaço contínuo. Nem maxilar, nem queixo, nem lábios. Um espaço contínuo entre o nariz e o pescoço.

Quando completou dez anos, o médico, que os visitava toda a semana, cortou o cordão umbilical. Isso foi pelo fato de que o menino já estava com cinquenta quilos. Obeso. O médico temia por sua saúde. Os pais, não. Para eles, o menino era perfeito. E que olhos expressivos! Negros, muito negros, ou, antes, ausentes completamente de cor. Quando o médico desligou mãe e filho, o menino parecia muito bem, apesar do peso extremo.

No dia seguinte, ei-lo andando. Andava e tocava tudo, tentando achar, em todas as coisas, um orifício, um espaço. Encontrou um: a porta da rua, que estava sempre aberta. (Orfeu e Eurídice não gostavam de lugares fechados; recintos assim lembravam caixão, morte...). O menino saiu sob a fala do pai: “Vai, meu pequeno; vai brincar”. O pequeno nunca mais voltou.

Orfeu e Eurídice não deram, jamais, falta do filho. Sentiam falta de alguma coisa, mas era um sentimento vago, como se a casa estivesse muito fechada. Mandaram fazer mais duas janelas e uma porta no meio. A falta passou. Tanto as janelas quanto a porta voltadas para um pequeno jardim que cultivavam no fundo da casa. Cada qual – Orfeu, à esquerda e Eurídice sentada à sua direita – ficava numa janela, às tardes, olhando para o carvalho que secava mais atrás.

O menino estava com quinze anos. Havia cinco morava na rua. Não propriamente na rua: no esgoto, numa ruína, ou em buracos de sítios despovoados. Gostava do espaço. Acho que era feliz. Não tenho certeza, pois não sorria. Nunca. Mas gostava de olhar. Um dia, um homem rude cismou com ele, porque não parava de olhá-lo. O homem talvez se chamasse Ares. Ares perguntou-lhe o que havia; como o rapaz não lhe respondesse, espancou-o, pensando que o menino troçava com ele. “Fala! Fala!”, gritava o homem rude, enquanto batia. Mas como um cordeiro que se cala diante de seu tosquiador, ele não abriu a boca. Não tinha boca.

E, já com vinte anos, estava quase seco. Não pesava mais que vinte e três quilos. Como estava sempre em um espaço diferente, nunca era conhecido ou reconhecido. Não podia ser relembrado, porque lhe perguntavam o nome, mas ele não dizia nada. Não tinha boca. Achavam-no idiota, e o deixavam logo em seguida. Um dia, porém, tropeçou num cadáver de um indigente, que havia se matado cortando a garganta com um pedaço de vidro. O rapaz tateou o pescoço do mendigo, depois a boca, semi-aberta num aparente sorriso de gozo. Achou a boca daquele homem (que, provavelmente, se chamava Apolo) a coisa mais linda que já tinha visto. Viu sua imagem no caco de vidro. A superfície côncava e refletora daquele objeto fez com que ele sentisse ainda mais a diferença entre eles: Apolo tinha boca; ele, não tinha boca.

Pegou, então, do vidro que jazia na mão de Apolo e, medindo três dedos abaixo do nariz, passou com força a ponta aguda do caco, abrindo seu próprio pescoço. A agonia, antes da morte, durou até às nove e meia da noite de seu vigésimo ano de vida. Ele, no entanto, sorria, e o sangue, borbulhando, produzia aquilo que podemos chamar de seu primeiro som. Parecia que dizia “eu... eu... eu...” Seus pais se orgulhariam se pudessem ver ali o seu único e talvez primeiro filho.

Leonardo Ramos.