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terça-feira, 5 de novembro de 2013

A better life

































Foto: Leonardo Ramos





The better life is that one you carry without any hope at all... Because this way you can take anything as it comes. Simple as that.

I hope so...

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Hermes.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Playlist da semana

About light days. Let they come back again. Let the sadness go away. Let the hope in from the cold.

1) Maria Rita - Casa pré-fabricada



2) Elbow - One day like this



3) Pelos - Supernova



4) David Gilmour - Wot's, uh... the deal



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Leonardo Ramos.

sábado, 27 de abril de 2013

sábado, 5 de janeiro de 2013

Tiraram-me o meu amado. Tiraram-me tudo. Os deuses me tiraram tudo. Levaram-no para longe dos meus braços, dos meus dedos, da minha boca, dos meus seios. Aonde voltarei meus olhos? Onde descansarei minha cabeça? Tenho-a recostada ao muro desta casa. Que já não é mais casa, já não é mais nada, é só uma pedra de formato estranho e oca, vazia.

Oca. O eco do teu nome ressoa no interior. Preso lá dentro, jamais chegará aos teus ouvidos, para que voltes, mas somente aos meus, para que eu lembre. Esqueço-me. Volto a me lembrar. Olvido. Perdida. Medida sobre medida. Pedra sobre pedra. Amores-perfeitos rodeiam esta pedra fria. Com a maior alegria, pisoteei-as todas. Sufoquei-as. Murcharam. Morreram. Tirei-lhes a vida. Como tiraram os deuses a minha.

À míngua. Quatro dias sem dormir, cinco dias sem comer. Eu sei que eu não devia, mas não consigo não pensar. Não paro de imaginar as muitas mulheres que os deuses devem ter colocado em seu caminho. Caminho de um lado para o outro. De um canto ao outro canto da pedra morta. E paro. Paro ao canto rouco da porta entreaberta. Torta, empenada, enferrujada, inútil. Inútil tentar quebrá-la aos murros. Inútil gritar teu nome dentro desta pedra fria.

Teu nome some pelos ares e volta. Volta assobiando pela porta entreaberta, e me desperta do meu pesadelo. E os meus cabelos, longos, na minha boca aberta me engasgam e me sufocam e me lembram a lã de ouro de que foste atrás. Lã? Será que eu estava sã quando partiste? Eu sei que eu não devia acreditar em tudo o que me dizem. Eu não devia acreditar em deus que não existe. Eu não podia me fiar na volta que prometeste. Eu não devia mais sobreviver quando partiste. Eu não queria mais este corpo que não é teu, nem meu, nem de Afrodite.

Meu corpo agora jaz na pedra fria.

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Leonardo Ramos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Playlist da semana

Em homenagem ao Josias Ramos, que faria 61 anos este mês e gostava de samba.

1) Toquinho e Vinícius - Chega de saudade



2) Baden Powell - Samba em prelúdio



3) Roberto Ribeiro - Todo menino é um rei



4) Paulinho da Viola - O filho que eu quero ter



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Leonardo Ramos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sobre estragos sutis

(Trilha sonora obrigatória: Estragos Sutis, Pelos. O texto é escrito como um diálogo com a letra da música)



"O que o traz, passado? Por que se faz presente assim? O modo errado ao te enterrar?"

Este mês completam-se vinte e seis anos da morte de Josias Ramos, meu pai. Em agosto 1986, voltando do horário de almoço para a Telemig, onde ele trabalhava, ele bateu na traseira de uma carreta com seu chevette branco na Av. Cristiano Machado, perto do túnel, bem perto de onde a gente morava. Ele morreu no caminho para o hospital. Minha mãe, no dia do enterro, me perguntou se eu queria ir ao funeral, mas eu não quis. Eu tinha cinco anos e, se vocês me perdoarem a imodéstia (ela tem uma função no desenrolar da história), bastante inteligente. Havia aprendido a ler com três anos e a escrever com quatro, sozinho. As pessoas ao meu redor se impressionavam tanto com essa "inteligência" que imaginaram, penso eu, que eu superaria bem essa perda. Afinal, também, como eu era muito novo, eu não devia entender muito bem o que era morrer. Para me dar uma força, elas me diziam: "agora você é o homenzinho da casa!", "agora você tem de cuidar da sua mãe e dos seus irmãos mais novos."

A minha mãe, como toda esposa que perde o marido a quem amava, especialmente de maneira tão repentina, desmoronou, obviamente. Eu tenho as memórias vivas dos momentos de luto dela, como da vez que ela chorava olhando pela janela de onde a gente via meu pai saindo para viajar, com sua bolsa bege a tiracolo, acenando para a gente até desaparecer na esquina. Chorando e pensando, provavelmente, em se jogar dali, como mais tarde ela confessaria. Lembro vê-la encolhida no sofá da sala da casa da minha avó, mãe dela, depois que a gente saiu de Belo Horizonte para ir morar em Bom Despacho. Nessa memória, em especial, lembro também ter perguntado a ela porque chorava, já cumprindo a missão que me tinham dado - de cuidar dela.

"E o que se traz por trás do véu o seu semblante não mostrou. Certos gestos são palavras no ar..."

Mas como cuidar de alguém que está em luto se você mesmo também perdeu alguém importante? Meu pai morreu num tempo em que toda criança enxerga os pais como heróis supremos, perfeitos, que não permitem que nada de mal aconteça. Eu tinha perdido um dos meus heróis, e a outra heroína parecia estar derrotada para sempre. Como erguer do chão uma heroína quando você tem cinco anos apenas e não há mais nenhum herói para ajudar? Tentando ser um. Meu plano era simples: primeiro, minha mãe não deveria me ver chorando, pois ela poderia ficar ainda mais triste. Então, como "missão dada é missão cumprida", eu me escondi por trás do véu do pequeno prodígio de inteligência e de religiosidade, já muito maduro para entender que meu pai não voltaria mais e que então eu deveria ocupar o lugar dele como o esteio psicológico dessa família que ele deixou. Depois, se eu conseguisse afastar dela todo tipo de sofrimento ou frustração, tudo estaria bem, e o Josias seria uma bela lembrança de uma família feliz.

Muito bem planejado de minha parte, especialmente contando com apenas cinco anos! Eu realmente era um pequeno gênio... (Essa imodéstia é pura vaidade mesmo, não tem nenhuma influência na história.) Porém, todo gênio tem sua fraqueza, e a minha foi superestimar a minha própria genialidade: o plano era impossível de ser executado, até mesmo por mim. Não há como afastar toda fonte de sofrimento de alguém. E algumas vezes, eu mesmo era a fonte de insatisfação para ela, porque, enfim, ninguém é perfeito, nem mesmo eu. E aí, o que você faz quando você, por um motivo banal como lavar a louça do almoço, faz sua mãe chorar, sua heroína que está tentando se levantar e contava com sua ajuda? Vai para o banheiro - afinal, ela jamais deve vê-lo chorando - e implora ao deus em que você cria que o matasse, porque você não era corajoso o bastante para se suicidar?

"Eu peço à Sombra, eu peço à Sombra para não me assombrar!, para não me assombrar! Eu peço à Sombra, eu peço à Sombra para não me assombrar!, para não me assombrar!, para não me assombrar!"

Por mais ou menos vinte anos eu quase não falei no nome dele, eu quase não pensei nele e, quando me perguntavam sobre ele, eu dizia que tinha superado. Que fazia falta sim, mas que estava tudo bem. Mas eu sonhava - e ainda hoje sonho - que ele estava voltando para casa no fim da tarde, como sempre fazia, e ia montar um castelinho de peças de madeira, com um pato donald no centro segurando um toquinho cilíndrico de madeira fazendo as vezes de cetro. Um castelo que eu, às vezes, derrubava, pra ter o gosto de vê-lo montando de novo. Havia um edifício em forma de castelo também no caminho da casa do pai dele, que a gente costumava visitar de vez em quando, no chevette branco, ao som de Toquinho, Vinícius, Chico, Beth Carvalho e todos esses sambas bons que ele me ensinou a gostar e que ele costumava tocar - inclusive aquela, que eu adorava pedir: "papai, canta aquela que você fala que tem mais peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que você vai dar na boca da mamãe?" E aí ele começava a tocar e cantar, naquele Tranquillo Giannini lindo que ainda existe: "Vai, minha tristeza..."

Mas e quando a barba começa a crescer, e seu semblante começa a parecer tanto com o dele a ponto de uma tia se assustar achando que estava vendo o Josias? Obviamente eu fico extremamente orgulhoso quando me dizem que eu me pareço com ele. Ele era meu herói! Mas o fantasma dele está aí sempre para me relembrar de que eu não sou ele. Eu não sou o esposo da minha mãe (o texto é meu, Freud!), eu não sou o pai dos meus irmãos, eu sou no máximo um filho que se parece muito com ele. Isso não me dá credenciais para suportar tudo o que eu tentei suportar em vinte e seis anos. Todos os anos de tortura nos colégios por que eu passei, porque eu era sempre um ano mais novo (o pequeno gênio aqui, por já saber ler e escrever, fez o pré-primário e a primeira série em um ano apenas, ficando sempre mais jovem que os demais colegas), porque eu era fracote, porque eu era nerd, porque eu era calado, porque eu era feio. E eu chegava em casa e... não contava nada para minha mãe, porque, enfim, ela sofria muito mais do que eu, tendo de trabalhar o dia inteiro para nos criar sozinha. Eu não podia perturbá-la só porque tinha apanhado na escola, ou porque a menina que eu admirava veio dizer que gostava de mim para me pregar uma peça e deleitar os demais. Isso não chega aos pés do sofrimento de perder o marido que ela amava num acidente de carro. Seria muita frescura minha chorar por causa disso.

"Movido a sonhos surreais, a minha mente repousou num canto oposto a tudo seu."

Nunca tive essas fantasias babacas (com o perdão para quem as tem) de: "ah!, eu queria ter apresentado a minha primeira namorada pra ele...", "ah! eu queria ao menos ter dito adeus..." e demais mimimis. Eu queria o Josias aqui para rivalizar com ele. (Pode voltar agora, Freud!) Para brigar com ele. Para discordar dele e dizer que ele estava errado sobre qualquer bobagem do cotidiano. Porque é para isso também que os pais servem: para ser um contraponto nosso. Para ir nos ajudando, em cada conflito, a entender quem nós somos. Para mostrar que somos todos humanos, todos cheios de misérias, fracassos, maldades, perversões. Para mostrar que não existem heróis nesse mundo, que somos naturalmente iguais e que o que existe é a força de vontade, a luta, o suor, o sofrimento pra conquistar o que se quer. Porque é somente quando criança que a gente acha que nossos pais são realmente perfeitos. E não há mal nenhum quando acontece a desilusão, pelo contrário!, é aí que a gente começa a dar valor aos atos de bravura dos não heróis, como os da minha mãe, por exemplo, ao longo desses anos. Não, eu queria o Josias aqui para me chocar com ele, como o mar em ressaca se choca com a rocha.

Mas ele morreu numa época em que eu o via como perfeito, e os relatos de quem conviveu com ele não ajudam muito também. Ninguém me aparece com um podre, com uma coisa ruim que ele fez. Nada. O homem devia ser um anjo, só pode. Há momentos em que eu chego a duvidar que ele existiu. Parece, de vez em quando, que foi tudo um sonho. E isso é de enlouquecer, de enlouquecer. A cabeça dá um nó, os sentimentos se misturam, e já não se sabe mais o que é real e o que não é. É especialmente desesperador quando se acorda sonâmbulo na madrugada procurando cadáveres pelo quarto ou vermes na sua cama. A sensação de terror e o choro são realíssimos, e leva bastante tempo, após ter revirado o quarto inteiro, para entender que o cadáver insepulto está na sua mente. Essa, talvez, seja uma prova da existência dele. A outra pode ser a que meu irmão disse, uma vez. Meu irmão não se lembra dele, e às vezes tem a mesma impressão que eu, de que ele não existiu. "Eu sei que ele existiu porque ele me faz falta.", foi o que ele disse.

"Não se preocupe, um dia a gente se consola e chora sem história pra contar."

A vida é narrativa. Só faz sentido participar de um momento bom, agradável, de felicidade ou de vitória se depois a gente puder falar sobre ele. Mesmo os de tristeza: é com a sua narrativa que é possível vivê-los plenamente. Eu tenho poucas memórias do Josias, mas algumas são bem claras. Uma delas é dos domingos. Aos domingos, de vez em quando, a gente ia ao Parque Municipal pela manhã. Na ida, meu pai acelerava um pouquinho mais para passar naquela sequência de morro e reta da Francisco Sales, para dar a sensação do tobogã, que era maior naquela época, porque não havia ainda o viaduto. Chegando no parque, íamos andar em alguns brinquedos e estender uma toalha sobre a grama e deitar. Eu tinha alguns livrinhos que eu adorava, dos quais eu já lia algumas palavras, e outros que minha mãe lia pra mim. Depois, a gente ia almoçar n'O Laçador, e um dos garçons de lá era especialmente gentil comigo. Uma das vezes, meu pai me carregou até o caixa, e esse garçom me entregou um desenho de dois pinguins copiados da garrafa de Antártica. Eu fiquei felicíssimo com o presente! Isso porque havia uma música do Vinícius para crianças, uma fita K7 da Arca de Noé, e um trecho da música "O Pinguim" dizia assim: "Quando você caminha/ Parece o Chacrinha/ Lelé da caixola...". Meu pai me chamava de "Leléo da cuca"...

No final dessa fita, havia uma música, muito bonita mas muito triste, que ele costumava cantar para mim. Falava sobre alguém que sonhava com um futuro filho. A última estrofe era assim: "Quando a vida, enfim, me quiser levar, pelo tanto que me deu, sentir-lhe a barba me roçar num derradeiro beijo seu. E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus, ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus. Dorme, meu pai, sem cuidado, dorme que ao entardecer teu filho sonha acordado com o filho que ele quer ter."

"E o que eu faço agora com as promessas que você deixou num canto escuro aos tratos de ninguém?"

Em Índios, Renato Russo diz: "E é só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi". É sim, pai, você é o único que tem essa possibilidade de matar a saudade de tudo o que eu não vivi com você, de todo futuro preso no tórax esmagado pelo parachoque de um caminhão. Não tenho esperança nenhuma mais de qualquer coisa além desta vida material, então eu acho que essa é uma saudade que não é passageira. E eu estou conversando não com você, porque já não pode mais me ouvir chamando-o de "bem", que era como você chamava a mamãe e a mamãe o chamava e eu imitava; eu estou conversando comigo mesmo, com esse homem de trinta e um anos que eu me tornei, de barba, como você costumava ficar quando a vovó não reclamava, e com essa criança de cinco anos, muito inteligente, mas muito frágil, que ainda insiste comigo que eu devo engolir o choro, porque já faz muito tempo, porque nem é tanto sofrimento assim, porque eu tenho de cuidar dos meus irmãos, porque a mamãe não pode ficar triste.

Mas, sabe?, ela fica triste do mesmo jeito, não só por causa disso, mas por causa das pequenas ou das grandes dificuldades da vida, como todos ficamos tristes. E meus irmãos já são adultos, não precisam mais de que eu cuide deles. Então, pai, mãe, irmãos, eu mesmo e todas as pessoas à minha volta, perdoem-me por decepcionar vocês, mas agora eu só quero tirar essa máscara de adulto e chorar, chorar, chorar, chorar todos esses vinte e seis anos de tristeza sufocada e solitária, desse sentimento de ausência irremediável, de vazio, de luto.

"A falsa frente se desfigurou."



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Leonardo Ramos.

domingo, 29 de julho de 2012

Caverna

Este é o terceiro dia que estou nesta caverna. Aqui não há nem uma nesga de luz do sol. A escuridão é plena e profunda. E, no entanto, eu enxergo bem.

Estou aqui porque, lá fora, desde que eu alcancei este monte, fugido de onde eu vivia, há uma águia prestes a me devorar. Cá dentro, há outros animais, mas eles, até agora, não me fizeram mal algum. Cobras, morcegos e ratos me fazem companhia. Animais cegos ou quase, mas que se saem muito bem nas trevas, enquanto aves de rapina como a águia não sobreviveriam nessas condições por muito tempo. É interessante: a luz não nos ajuda a enxergar. Quanto mais luz, menos visão.

Você tem uma visão muito pessimista da vida, a minha amada me dizia sempre. Que eu via o mundo em tons muito obscuros. Que não me abria para a esperança. Segundo ela, o mundo não era assim. Segundo ela, havia nos homens uma inclinação natural para o bem. O que havia de escuro neles poderia ser redimido se fosse bem iluminado. E vinha com vários exemplos, os quais não lembro - nem sei se os escutava. Ao final, eu dizia, sempre - você, meu bem, é minha esperança. Eu dizia também, sempre, que, quando o homem saiu da caverna, ele recebeu dos deuses um presente, uma caixa. Dentro dela havia a inteligência. A esperança, porém, não estava lá, porque os deuses não sabem o que é isso. Um deus não precisa esperar por nada, não há tempo para imortais.

Para os mortais, sim, há um tempo. E ele é inexorável.

Ela, então, com seu sorriso encantador de sempre, replicava que eu havia caído em contradição. Se eu já havia dito que ela era minha esperança, como eu poderia depois afirmar que os deuses não haviam criado a esperança? Eu sorria e dizia que não havia sido contraditório. Não foram os deuses que criaram a esperança. Fui eu. Ela gargalhava e me chamava de megalomaníaco. Mas eu não sou megalomaníaco. Nunca quis ser um deus nem tenho vocação para ser herói. Meu ódio não permite um ato de heroísmo.

O ódio não cega como dizem. O ódio, assim como a escuridão, ajuda a enxergar melhor. Por exemplo: o ódio do homem que matou a minha amada o fez preparar tudo com cuidado, fê-lo ver tudo com antecedência. Ele a observou por muito tempo. Sabia de sua rotina, de seus gostos, de seus medos. Sabia que era ela a minha esperança. Sabia que era ela todos os meus tesouros, toda a minha vida. Sabia que era ela todo o meu sorriso e o meu bem.

Meu bem - eu dizia a ela, sempre -, o que há de mais humano é o ódio. Os animais não sentem ódio. É preciso ter inteligência para odiar. Eles sentem fome ou medo. O ódio é um sentimento, um sentimento que consome como uma chama. O ódio, eu dizia, é como uma fogueira dentro de uma caverna: ela ilumina e faz com que saia todo tipo de animal pestilento e peçonhento, como cobras, morcegos e ratos. E é só nesse tipo de iluminação que eu acredito. Ela, então, olhava para mim, com seus olhos hipnotizantes, e se dizia triste com isso. Eu sorria e a beijava.

O homem que a matou também a beijou. Ele a amava. Mas não foi o amor por ela que venceu. Foi o ódio por mim que o levou a trucidá-la como fez, sem misericórdia alguma. Porque ele sabia muito bem que era ela todos os meus tesouros. Antes odiar-me que amá-la. Esse ódio, provavelmente, o fez feliz, ainda que por pouco tempo. Sobre ela - na verdade, sobre mim -, ele despejou toda a sua pestilência, toda a sua peçonha, todo mal que havia dentro de si. E isso ficou bastante claro no corpo da minha amada. Quando eu entrei no cômodo em que seu corpo jazia, eu busquei um pouco de luz. Antes fosse cego. Junto ao seu corpo desfigurado, estava também o dele. Não tive outra reação senão a de correr. Deixei os corpos como estavam e fugi.

Eu poderia despejar meu ódio sobre meu próprio corpo, mas não quero me igualar a ele. Eu gostaria de poder fazer meu ódio subir aos céus como uma chama, votado inteiramente contra os deuses, mas eles não existem. Eu queria ser o próprio Lúcifer, o próprio fogo do tártaro, estalando de ira, pronto a sair do fundo das cavernas infernais para caçar os malditos deuses e, um a um, fazê-los sofrer por bastante tempo, até que implorassem por misericórdia. Mas não há tempo para imortais. Tampouco há deuses. E para os mortais, não há esperança. Há somente o tempo, inexorável.

Esta noite, acenderei uma fogueira nesta caverna para que saiam as cobras, os morcegos e os ratos. Criarei meu próprio deus, todo cheio de bondade e misericórdia, e eu serei seu rival, seu perfeito oposto. Eu lutarei contra ele com todo o meu ódio, por razão alguma, e serei vencido. E amanhã sairei também eu da caverna e entregarei meu corpo à águia que ele enviará para que eu seja devorado.

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Leonardo Ramos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Playlist da semana

Sobre o frio.

1) Nick Drake - Day is done



"When the night is cold, some get by, but some get old, just to show life's not made of gold - when the night is cold."

2) Pink Floyd - Wot's... uh the deal



"It's time to let me in from the cold. Turn my lead into gold, 'cause there's a chill wind blowin' in my soul and I think I'm growin' old."

3) Portishead - Western eyes



"I feel so cold on hookers and gin - this mess we're in."

4) Damien Rice - Cold water



"Cold, cold water surrounds me now, and all I've got is your hand."



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Leonardo Ramos.

sábado, 7 de julho de 2012

Fonte

Quatro vezes fui à fonte para matar minha sede em águas límpidas. A água não manava da mesma forma as quatro vezes, não era a mesma água nas quatro vezes. O desenho das nuvens no céu não era o mesmo as quatro vezes. Eu não pisei exatamente no mesmo sulco que meus pés abriram as quatro vezes. A sede não era a mesma as quatro vezes. Eu não me dobrei da mesma maneira as quatro vezes. Em cada vez, eu era mais velho. Em cada vez, a água molhou meus lábios de forma diferente. Em cada vez, fazia mais calor, ou mais frio, ou chovia, ou era noite. As quatro vezes eu matei minha sede, que não era a mesma, de maneiras diferentes, na água que não manava da mesma forma, na fonte que era a mesma.

Quatro vezes eu fui à fonte da memória.

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Leonardo Ramos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Laetitia (Diálogo)

- Recolhe, Letícia, recolhe toda a areia da praia.

- Toda a areia? Impossível. Posso recolher bastante. Para que precisas?

- Para minha ampulheta. Bastante não é o bastante. Preciso de toda a areia.

- Como pensas colocar toda a areia desta praia em tua ampulheta?

- Não sei. Recolhe.

- Imaginando que pudesses - porque não podes! - guardar toda essa areia dentro da tua ampulheta: com que objetivo?

- Para que a areia deixe de escorrer pelo orifício estreito.

- Mas a areia na ampulheta só tem sentido se ela se mover de um espaço a outro, marcando o lapso de tempo. Não te entendo. Se queres que ela deixe de escorrer, ao invés de enchê-la com toda essa areia - o que é impossivel! -, esvazia-a.

- Mas então, Letícia, a ampulheta não teria areia. Estaria vazia. Eu é que não te entendo. De que me serve uma ampulheta vazia?

- Porém, permanece ainda uma pergunta: como pretendes guardar toda essa areia numa ampulheta tão pequena?

- Não sei, já to disse. Que uma coisa seja impossível de fazer não exclui o fato de que deva ser feita. Que a pedra não permaneça no alto do monte não impede que Sísifo a carregue permanentemente para o cume. Que não fosse possível que Psiché fugisse da sentença de Apolo não evitou que ela tentasse se esconder com Eros. Que ninguém tenha voltado do Hades não impediu que Orfeu tenha buscado Eurídice. Ainda que fosse impossível tirá-la de lá.

- Tu e tua religião órfica sem sentido...

- É a única possível.

- Vamos, então. Recolhamos toda a areia desta praia, antes que tenhamos de virar a ampulheta mais uma vez.

- Sabes que isso é impossível, não é, Letícia?

- Sei.

- Fico feliz! Recolhamos.

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Leonardo Ramos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vagos sentimentos vespertinos

Soneto - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.
Luís Vaz de Camões

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Leonardo Ramos.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Sob o silêncio da vigília


Foto: Leonardo Ramos

Soneto - Alegres campos, verdes arvoredos

Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos
Compostos de concerto desigual;
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois já me não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regar-vos-ei com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.
Luís Vaz de Camões
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Leto.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vagos sentimentos vespertinos

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!
Florbela Espanca

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Leonardo Ramos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Parceria: O Albergue + Pimenta, Moda, Música

Mais uma participação desta casa no blog da Dani. Falei de Nick Drake, um dos meus compositores favoritos de folk. Leia aí:

http://chillifashionrock.blogspot.com/2012/01/radiola-moderna-nick-drake.html

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Leonardo Ramos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Promessa

(Trilha sonora sugerida: Elephant, by Damien Rice)



Muitas vezes eu disse a mim mesma: isso vai acabar. Apesar das promessas, apesar das palavras, apesar do amor, apesar da presença.

Na realidade – o que é a realidade? – eu nunca acreditei que fosse acabar. Porque, se se pensa no que se vai fazer quando o mel acabar enquanto ainda se suga o favo, não se aproveita a doçura e não se resolve a amargura do depois. A amargura do depois não se resolve, mas a doçura do agora se perde muito fácil.

Em todo esse tempo em que estivemos juntos, os melhores momentos foram ao seu lado – ou à sua espera, o que dá no mesmo. Porque sua presença acontecia também na promessa. Porque o penhor dessa promessa era seu corpo, que eu ainda adoro.

Adoro – e sei que muito mais do que ela. Porque eu sempre vi como ela o trata. Não é nada grosseiro, não é nada de desprezo, mas não é amor. Porque o amor consome, disso eu sei. O amor faz sentir como se tivesse carregado um fardo pesado. Emendo-me: o amor faz carregar fardos pesados.

E o fardo pesado era seu corpo, que me consumia. Em todo esse tempo em que estivemos juntos, eu estive com outros homens. O sexo era bom, mas não me consumia. Ao fim, eu estava lá, eu era a mesma, sempre eu. Com você, eu me consumia. Era como uma vela. Eu me iluminava e me consumia. E era bom.

O amor tira o brilho dos seus olhos justamente por deixá-los brilhantes. Não quero ser repetitiva, mas é como a vela: é por iluminar que ela perde a própria luz. Ou, para mudar de metáfora, como a represa: é por se guardar que ela gera força. Não, isso é um outro exemplo... Não tem nada a ver.

Mas ela, não. Ela gosta de você, como se gosta de um amigo muito próximo. Ela é feliz com você! Não se pode ser feliz quando se ama. Não se pode. Eu não fui feliz. Eu não queria ser feliz. Eu queria você. Eu queria ser você. Eu queria me esquecer. Eu queria deixar de existir. Algumas vezes eu consegui.

Ela é mãe de seus filhos. O amor não gera vida. Não pode gerar. O amor é morte em cada despedida. Uma morte sem ressurreição, mas uma morte repetida. Essa balela de que a semente tem de cair na terra e morrer para dar frutos. Bobagem. A vida é um caminho para a morte, sempre. Estou me perdendo nos meus pensamentos... não sei o que estou dizendo.

Enfim, acabou. Você se foi com sua família. Eu continuo me deitando com outros homens, mas, como sempre, no fim, estou sempre eu mesma, intacta, esperando ser consumida. Porque se a gente caminha para a morte, não vale a pena se economizar.

E, veja!, eu nem queria me casar com você. Eu nem queria exclusividade. Eu não queria ter filhos com você. Eu não queria ter uma casa com você. Eu queria meu corpo em você. Eu queria me acabar em você. Eu queria morrer nos seus braços. Como muitas vezes morri.

Existe agora um barulho na minha cabeça, que é todo esse desejo, essa represa insana querendo vazar, querendo jorrar e se acabar, e destruir tudo em seu caminho, e destruir você, e evaporar... Mas, acabou. Você não está mais aqui. E eu continuo aqui, sempre eu mesma, sempre eu mesma sem você.

E essa ausência não vai se acabar. Porque não há mais penhor para as promessas. Não há mais promessas. Não há mais fogo para a vela. E ela não se consumiu toda. Ficou pela metade, torta, deformada.

Em todo esse tempo em que estivemos juntos, eu costumava fazer longas caminhadas solitárias no fim da tarde à beira da lagoa – ela não é natural, você sabe. Ela é um buraco com muita água represada dentro. Mas não era isso que eu queria dizer... Eu costumava fazer longas caminhadas solitárias no fim da tarde à beira da lagoa pensando na sexta-feira, no momento de reencontrá-lo. A imaginação não era muito fértil, a cena era sempre a mesma. Mas eu não era. Eu era sempre menos eu, cada vez menos eu.

Ainda faço minhas longas caminhadas à beira da lagoa, e elas continuam solitárias, continuam sendo no fim da tarde, mas agora o que me resta é relembrar. E relembrar não é bom, porque não há penhor, porque não há promessas. E relembrar consome as lembranças. E elas vão se esmaecendo na memória, e elas vão mudando, e já não se sabe mais o que é real e o que não é. E o que é a realidade? E isso é como aquela velha foto que, ao passar do tempo, vai perdendo a nitidez e ganhando sujeiras e intromissões que não faziam parte da cena inicial. Não, esse também não é um bom exemplo. É como a vela que se consome. Mas não quero ser repetitiva.

Nem me importo com a felicidade dela. A realidade é que eu não queria ser feliz com você. Não se pode ser feliz quando se ama.

Mas há uma dor que não acaba, por falta da promessa e do penhor, que é seu corpo, que eu adoro. E essa dor também não me consome. E no final sou sempre eu, eu mesma, sempre eu mesma sem você. Como a vela.
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Leonardo Ramos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Não - O Albergue não adotou decorações natalinas

Boa noite, caros frequentadores deste recinto.

Eu estou encarregada, desde que cheguei, de deixar o ambiente um pouco mais acolhedor, dentro das minhas possibilidades de ação. Leonardo e Hermes, outros dois donos desta casa, dão-me muita liberdade de mover um sofá aqui, acertar um quadro ali, colocar um perfume no ar acolá. O que me deixa feliz n'O Albergue é que eu tenho mais ou menos as mesmas ideias dos outros rapazes - um pouco menos ranzinza que o Hermes, um tanto mais intolerante que o Leonardo, verdade seja dita.

Mas, apesar das reclamações, decidimos (na verdade, eu decidi, certa da concordância dos outros dois) que O Albergue não aderiria ao clima noélico. Por quê? Porque a data é fictícia, porque as decorações são clichês (para não dizer cafonas), porque esta hospedaria deve ser igualmente acolhedora todos os dias.

Houve reclamações, claro. Eu as ouvi com atenção, óbvio. Mas Hermes, especialmente, desde a fundação, deixou claro que, aqui, os clientes são sempre bem tratados, mas nem sempre têm razão.

No seu primeiro ano, O Albergue deixou passar batido o natal. Neste ano, eu achei por bem dar, pelo menos, uma satisfação.

Um Feliz Natal para quem é de comemorar; uma boa noite para quem, como nós, acha que um dia é apenas um dia.



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Leto.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Vagos sentimentos vespertinos

Foto: Leonardo Ramos

Causerie

Vous êtes un beau ciel d'automne, clair et rose !
Mais la tristesse en moi monte comme la mer,
Et laisse, en refluant, sur ma lèvre morose
Le souvenir cuisant de son limon amer.

- Ta main se glisse en vain sur mon sein qui se pâme ;
Ce qu'elle cherche, amie, est un lieu saccagé
Par la griffe et la dent féroce de la femme.
Ne cherchez plus mon coeur; les bêtes l'ont mangé.

Mon coeur est un palais flétri par la cohue ;
On s'y soûle, on s'y tue, on s'y prend aux cheveux !
- Un parfum nage autour de votre gorge nue !...

O Beauté, dur fléau des âmes, tu le veux !
Avec tes yeux de feu, brillants comme des fêtes,
Calcine ces lambeaux qu'ont épargnés les bêtes !
Charles Baudelaire.

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Leonardo Ramos.