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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Narciso



Narciso, és o mais belo dos mortais!
As deusas todas te adoram!

Narciso, não percebes que as mulheres
Todas de ti se enamoram?

Narciso, o eco de teu sucesso
Te coloca em desvario.

Narciso, tua beleza é infértil,
Joga teu corpo no rio.

Leonardo Ramos.

domingo, 10 de julho de 2011

Eu

Meu
Eu
É
Teu

Sem
Céu,
Ao
Léu.

Mel,
Fel
E
Véu.

Leonardo Ramos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vagos sentimentos vespertinos

Acrobata da Dor

Gargalha e ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado,
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.
Cruz e Sousa
______________________

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Corpo



Quando é que te verei? Na tua espera
Sou presa desse deus que me devora
Sem pressa, membro a membro; muito embora
Eu permaneça vivo. Ah!, eu quisera

Que no ventre de Cronos – essa fera
De ódio cheia e raiva sem demora –
Eu reencontrasse o meu amor d’outrora,
Assim como, ali, Zeus reouve Hera.

Mas no âmago do Tempo não há nada
Além dum só rochedo – cujo cume
Rapidamente alcanço. Na saliência

Meu corpo entrego – a alma olvidada,
Pendendo entre o frescor de teu perfume
E o infinito abismo de tua ausência.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Soneto - De ser parece que esqueci-me

De meu grande amigo e irmão Adriano Drummond.
http://naturainutiliarum.blogspot.com

De ser parece que esqueci-me.
E pelo Inferno dos meus olhos
(Já sei bem que castigo escolhe-os,
Certo da espécie deste crime:

Ter-me afogado no sublime),
Sentindo um qualquer perfume – óleos
De Eurídice? – viajo em regime
De abrolhos, antolhos, in-fólios.

Pedras púrpuras palmilho,
Sem Beatriz e sem Virgílio,
Assim sempre a caminhar. Mas

Para nada, nada mesmo.
Também assim, num gesto a esmo,
Achei o morto que em mim jaz.
________________________

Leonardo Ramos.

sábado, 4 de junho de 2011

Oração das 4h40 (Incompletas)

Quando, por fim, meu tosco lábio tocaria
sedento, o teu – ah, deus! –, eu não compreendia
que, como Páris, tendo em vista a bela Helena,
atrairia de altos céus a ira mais plena.

Na noite – mais iluminada do que o dia –
considerei que a dor jamais me alcançaria.
Eu não imaginei, porém, que aquela cena
tamanho ódio causaria em Atena.

Julgando justo o que era justo, adormeci
na justa paz desse pacífico começo;
mas, quando acordo, inda feliz por que vivi,

surpreso e solitário eu colho o que mereço:
o castigo de Hera, pois não a escolhi,
e que Afrodite venha reclamar seu preço.

Leonardo Ramos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

De repente...

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes
__________________________

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Braços

Quando se cai no abismo da saudade,
busca-se, em vão, lembranças a salvar:
murmúrios, odores, a suavidade
das mãos entrelaçadas, um olhar,

o falar só por falar, a vontade
de, do abraço, não mais se separar,
o riso sem motivo, a intensidade
dos braços que procuram se enlaçar.

Mas nada nos impede de cair
quando o Hades nos está a reclamar.
E, com Orfeu, nós vamos descobrir

que o mais embasbacante é constatar
que aquele amor que deveria unir
serviu, somente, p’ra nos apartar.

Leonardo Ramos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mãos

Há na separação uma tal propriedade
que, desligando aquilo que se achava unido,
constrói, num laço, um vínculo de intimidade
inteiramente novo, mas não desconhecido,

porque o pensar – esse artifício da saudade –
erige fortes contra a solidão e o olvido:
é como Psiqué guardada na soledade,
feliz mesmo na espera, alheia ao alarido.

Faz muito tempo, Zéfiro levou-te embora
aos altos montes deste amargo afastamento,
longe de mim, perdido em devaneios meros;

mas haverá uma noite e, então, uma aurora;
e, unindo nossas mãos, num descortinamento,
contemplaremos – sob o véu – a face d’Eros.

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Vagos sentimentos vespertinos


Dois poemas que não são meus, mas que podem descrever um pouco do meu sentimento nos últimos dias.

"somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though I have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands"
E. E. Cummings
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"O filho que eu quero ter

É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem

De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro bei..jo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer ter."
Vinícius de Morais



Leonardo Ramos.

sábado, 2 de abril de 2011

Pra que lado fica o porto? Parte III

III

Terás alguns bons amigos,
Que te amarão de verdade;
Outros, serão teus colegas,
Teus companheiros de idade.

Amigos são como o vento
Que move as pás do moinho:
Dão-nos a força precisa
Para seguirmos caminho.

Mas se tiveres colegas
Que te pareçam chatinhos,
Pensa que as rosas têm flores
Que trazem junto os espinhos.

Todos serão companheiros,
Mas cada um tem sua meta.
Um quer ver altas montanhas,
Outro deseja ir a Creta.

Uns vão descer na Argentina;
Outros virão da Espanha.
Há quem embarque na França
Pra desistir na Alemanha.

Aprenderás na viagem
Que velejar sobre os mares
Une duas coisas distintas
E, ainda, complementares:

O capitão do navio
Anda com muita atenção:
Numa das mãos traz a bússola;
Noutra, segura o timão.

Alguma vez acontece
(Sempre que o tempo ameniza)
Que o capitão ergue as velas,
Deixa o navio ir à brisa.

Mas para ir aonde quer
O capitão tem em mente
Que às vezes segue-se a rota,
Noutras nos leva a corrente.

E quando as nuvens se ajuntam
E o céu azul se acinzenta;
Quando há períodos de chuva,
De tempestade e tormenta,

Escolhe apenas um rumo,
Acende muitas luzinhas;
E presta muita atenção
Nas armadilhas marinhas.

(Nunca dispenses ajuda
De quem vem junto contigo,
De quem tem experiência,
Nem de quem for teu amigo.)

Após um breve silêncio
Daquele adulto bonzinho,
O pequenino João
Disse, com todo carinho:

“É muito bom, meu senhor
Ouvir as tuas histórias.
Mas quero agora escutar
As tuas grandes vitórias.”

“Ah, meu querido João,
A vida é contraditória!
Às vezes é na derrota
Que construímos a glória.

Mas, sobre as coisas do mar,
Não vou dizer mais agora.
Tu saberás que fazer
Quando chegar a tua hora.

Não te preocupe a idade,
Não tenhas pressa em crescer;
Só aproveita o momento
E o que ele te oferecer

De bom em cada viagem.
Para saber velejar,
Não temos fórmulas mágicas:
Não há “estradas” no mar.

Lembra somente que agora
Serás, com teus companheiros,
Apenas um tripulante
(Alguma vez, timoneiro);

Mas, se tiveres paciência
Para, com o tempo, aprender,
Navio próprio, algum dia,
Para guiar hás de ter.”

“Nossa conversa foi boa!”
– Disse o menino João.
“Somente agora eu percebo
Que estou na embarcação.

Não sinto mais tanto medo.
Só estou um pouco ansioso
Para curtir a viagem:
Um sentimento gostoso.”

“Mais uma vez nos veremos.”
– Disse o adulto João.
“Guarda tuas experiências
Dentro do teu coração;

Quando eu puder te rever
Quero escutar as histórias
Das tuas grandes viagens,
Das tuas muitas vitórias.”

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Pra que lado fica o porto? Parte II

II

O adulto olhou a criança,
Sorriu, e lhe perguntou:
“Aonde vais, garotinho?
Que coisa te acelerou

Para correres assim
No centro desta cidade?
Que compromisso importante
Será que tens nessa idade?”

“Primeiro eu peço desculpa”
– Responde aquele menino –
“Depois, queria dizer,
Segundo foi meu ensino,

O nome que recebi:
Mamãe me chama João,
E assim me chama meu pai,
Como também meus irmãos.

Agora, sim, peço ajuda,
Estou um pouco perdido:
Ando à procura de um porto
Sem nunca a ele ter ido.”

Responde, então, o senhor:
“Perdoa a mim, amiguinho,
Eu nem te disse meu nome,
Que é como o teu, igualzinho:

O meu também é João.
E bem conheço o caminho
Que chega até esse porto.
Espera só um minutinho...”

“Não posso mesmo, senhor!”
– Disse com raiva. – “O navio
Há de partir daqui a pouco!
Já ouço seu assobio!”

Sorriu-lhe muito o João
(O que possui mais idade!)
E respondeu: “Vai com calma!
Não é preciso ansiedade!

O barco ainda não parte,
Está somente chamando.
Vamos seguir devagar;
E enquanto vamos andando

Vou te contar um pouquinho
De quando eu fui para o mar.
Tinha teu mesmo tamanho
E o mesmo olhinho a brilhar.”

Interessou-se o menino:
“Já que eu não parto tão cedo,
Quero poder te escutar;
Pois tenho um pouco de medo

De viajar no navio.
Vê só: eu sou tão fraquinho,
Sinto-me tão pequenino!
Porque sou só garotinho.”

“Não te preocupes assim
Com teu tamanho, João!
Vou te contar minha história,
Presta bastante atenção:

Achava tudo tão grande
Quando cheguei ao navio!
Era gigante o convés,
Até senti um arrepio...

Havia muitos meninos,
Do meu tamanho ou maiores;
E várias outras pessoas
Estranhas nos arredores.

Paralisado, eu pensava
No que devia fazer.
A gente perde as palavras
Quando precisa dizer.

(Não compres nunca palavras,
Que elas te deixam sozinho.
Juram levar-te pra Roma;
Deixam-te a pé no caminho.)

Quando ficares assim
Não estarás obrigado
A repetir as palavras
Que os outros têm esperado.

Busca tuas próprias palavras
No dicionário da mente;
Mas, se não queres falar,
Faze silêncio, somente.

Aqui está uma coisa
Que vou dizer bem baixinho:
Pessoas são diferentes,
Vais ver durante o caminho.

Pessoas são como a música:
– Assim eu tenho aprendido –
Umas são belas! Mas outras
Machucam bem nosso ouvido...

Há quem entenda o silêncio,
Há quem prefira falar.
Acha teu próprio caminho,
Não penses em os julgar.

E se quiserem julgar
Teu ser pelo exterior,
Lembra que está mais ao fundo
O que merece louvor:

É lá, bem dentro do peito
Que se esconde o amor,
A compaixão, a verdade,
Jóias de grande valor.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Pra que lado fica o porto? Parte I

Para um pequeno menino
(Gigante de coração)
Que se parece comigo,
E que se chama João.


I

Era só seis da manhã.
Bem lento o sol acordava.
Somente havia uma nuvem
Que pelo céu passeava.

O sol, que olhava a paisagem,
Pediu à nuvem licença;
Mas vem o vento veloz
E a empurra co’indiferença;

Ela trombou noutra nuvem
Que andava sem atenção...
Elas gritaram bem alto:
Foi um imenso trovão.

As duas nuvens então
Com muita dor pranteavam;
(E sobre o choro das nuvens
É bom que todos já saibam:

Se alguma delas escuta
Uma colega a chorar,
Chama depressa as demais,
E juntas vão derramar

Aquele choro magoado
Que nós chamamos de chuva)
E o sol, já desanimado,
Calçou as mãos com sua luva,

Vestiu a capa marrom,
Conjunto com seu chapéu;
Pensou: “Que grande bagunça
As nuvens fazem no céu!

Um pequenino problema
Exige todo esse drama?
Ah! Se eu ainda estivesse
Deitado, à noite, na cama!”

As nuvens juntas deixavam
A vista bem mais escura.
Uma dizia: “Não sabes!
Vida de nuvem é dura!

Eu como floco por floco,
E vou ficando gordinha;
Mas quando tem ventania,
Ela me espalha todinha!”

A outra vinha chorando
Querendo achar sua madrinha;
E a descobriu misturada
Com sua antiga vizinha.

Era um acúmulo grande
De nuvens tão diferentes!
Algumas eram mocinhas,
Algumas experientes.

Uma, inclusive, dizia
Que era bastante menina
Quando, saindo, deixara
Sua família na China.

Contou histórias legais,
E quis contar outra vez.
Houve um pequeno problema:
Ninguém sabia chinês.

O sol, cansado de tudo,
Olhando abaixo entrevia
Uma figura pequena
Quando da chuva fugia.

Pediu licença às amigas,
E elas saíram depressa.
Lançou sua luz no menino,
Que parecia com pressa.

Bem logo a chuva parou.
Pôs-se o garoto a correr.
Com seus cabelos molhados
Na sua testa, a escorrer,

Vestia um terno branquinho
E tinha um quepe na mão
Que colocou sob o braço
Pra não jogá-lo no chão.

Mas não sabia o garoto
Por que caminho seguir.
Olhava todas as ruas
Para tentar decidir.

Enquanto olhava pro lado
Não viu o moço parado
Em pé, em frente à parede,
Com seu joelho dobrado.

Bateu o nariz no joelho
Daquela perna dobrada,
Deu piruetas no ar,
Caiu no chão da calçada.

O homem, vendo o menino
Estatelado no chão,
Não lhe negou sua ajuda:
Ofereceu-lhe sua mão

E colocou-o de pé.
O pequenino, apressado,
Pegou seu quepe no chão,
Limpou seu terno manchado

E, quando olhou para o homem,
Tomou um susto danado!
Pois viu que aquele senhor
Como ele estava trajado.

Pra que lado fica o porto? Introdução

Caros alberguistas,

Decidi postar aqui um livrinho que escrevi depois de uma conversa com um afilhado meu. É, portanto, diferentemente de tudo que se viu até aqui, poesia para crianças. Para quem as tem entre sobrinhos, filhos, afilhados etc., e quiserem ler para elas, ficarei grato. E ficarei mais feliz ainda se, depois de lerem, me contarem como foi a reação da criança - seja ela de alegria ou desaprovação.

Ele vai ser publicado em três partes.

Abraços,
Leonardo Ramos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Lábios

Na tua ausência, sou como a criança
que sequestrou do deus a grei amada
para ganhar no Olimpo uma morada
e merecer de Zeus a vizinhança.

O gado que roubei - essa lembrança
do som encantador de tua risada -
tornou-se o meu penhor, a minha entrada
nos pátios divinais d'alegre estança.

E, se eu não mais te vir, levo, em meu colo,
a causa de ciúmes em Apolo -
teu beijo, o néctar que me soube a deus.

Mas, se voltares, te darei meus braços,
erigirei teu lar em meus abraços -
e tu não me dirás, de novo, “Adeus”!

Leonardo Ramos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Despedida órfica

Não voltarás.
Durante a fuga, eu, sofrendo saudade,
voltei meus olhos para trás.

Tu, enfeitiçada pelo deus dos mortos,
não suportaste meu olhar,
embora eu só quisesse o teu.

Adeus, metade amada de minh’alma.

Adeus.

Adeus ontem.

Adeus hoje.

Adeus amanhã,
que a falta
é uma maldição divina
que faz da despedida

uma

morte

sempre contínua.

Leonardo Ramos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Elegia

(Trilha sonora sugerida por Henrique de Souza: Elegia, by New Order)






Sol e estrelas cairão
Ao ver você partir.
Mas não será o fim.
O fim nunca virá...

O inverno vai voltar
Pra nunca terminar.
A espera não tem fim!
O inverso está em mim...

O inverso desse sol,
O inverso desse fim.
A escuridão de mim...
A escuridão em mim
Jamais terá um fim.
Jamais terá...

Leonardo Ramos.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ninfa

Eu vi no amanhecer a própria Galhardia
a figurar no ser duma mulher austera:
tinha na face o olhar da poderosa Hera,
ela emanava luz que a luz mais alvadia...

Ao vê-la se assomar, como se assoma o dia,
eu súbito senti olímpica atmosfera:
beleza e perfeição - fulgor que não se altera,
humana divinal que às eras transcendia.

E eu a cismar ali, silencioso e grave,
ouvindo o sussurar do doce mar de Atenas,
tentava capturar a cena, inquieta ave:

ela a passar; Apolo em suas melenas,
enquanto, a lhe beijar o lábio, a brisa suave
fazia estremecer d'inveja as açucenas...

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Fantasmagoria

"Por isso vão passar perante a turbamulta
Como abrupta avalanche, enorme catapulta,
Numa marche aux flambeaux, os famulentos vícios
Que cavaram no globo horrendos precipícios,
Os vícios imortais, que infestam tribos, greis,
Povos e gerações, seitas, templos e reis
E que são como a lava obscura da cratera
Que subterraneamente a tudo se invetera."
Cruz e Sousa, O Livro Derradeiro

Sorri quando caí; porque queria
Ter alma suspendida e sem cuidado
De coisa alguma que me houvesse ao lado;
Pois era tanta a morte que subia
Que nada me haveria machucado
Enquanto eu caía.

E enquanto à minha volta eu ouvia
Os vultos de fantasmas celerados
Cuspindo e vomitando seus pecados,
A lua lhes velava a vilania.
Mas olhos não os tinha tão velados
Enquanto eu caía.

E a vertigem que então descia
Por sobre a minha mente abandonada
Deixou a minha alma apavorada;
Não digo pela fantasmagoria,
Mas pela luz que andava degredada
Enquanto eu caía.

E o tropel horrendo que crescia
Diante desta face atordoada
Soava-me imensa gargalhada,
Tal qual Satã gozando em uma orgia...
E avançava a horda arreliada
Enquanto eu caía.

Fantasmas! Quem talvez se lembraria
Do vosso rosto humano delicado
Ao vê-lo assim, assaz desfigurado,
Atrás de diabólica histeria?
Que anjo mal vos houve aprisionado
Enquanto eu caía?

Leonardo Ramos.