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sábado, 7 de julho de 2012

Fonte

Quatro vezes fui à fonte para matar minha sede em águas límpidas. A água não manava da mesma forma as quatro vezes, não era a mesma água nas quatro vezes. O desenho das nuvens no céu não era o mesmo as quatro vezes. Eu não pisei exatamente no mesmo sulco que meus pés abriram as quatro vezes. A sede não era a mesma as quatro vezes. Eu não me dobrei da mesma maneira as quatro vezes. Em cada vez, eu era mais velho. Em cada vez, a água molhou meus lábios de forma diferente. Em cada vez, fazia mais calor, ou mais frio, ou chovia, ou era noite. As quatro vezes eu matei minha sede, que não era a mesma, de maneiras diferentes, na água que não manava da mesma forma, na fonte que era a mesma.

Quatro vezes eu fui à fonte da memória.

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Leonardo Ramos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Laetitia (Diálogo)

- Recolhe, Letícia, recolhe toda a areia da praia.

- Toda a areia? Impossível. Posso recolher bastante. Para que precisas?

- Para minha ampulheta. Bastante não é o bastante. Preciso de toda a areia.

- Como pensas colocar toda a areia desta praia em tua ampulheta?

- Não sei. Recolhe.

- Imaginando que pudesses - porque não podes! - guardar toda essa areia dentro da tua ampulheta: com que objetivo?

- Para que a areia deixe de escorrer pelo orifício estreito.

- Mas a areia na ampulheta só tem sentido se ela se mover de um espaço a outro, marcando o lapso de tempo. Não te entendo. Se queres que ela deixe de escorrer, ao invés de enchê-la com toda essa areia - o que é impossivel! -, esvazia-a.

- Mas então, Letícia, a ampulheta não teria areia. Estaria vazia. Eu é que não te entendo. De que me serve uma ampulheta vazia?

- Porém, permanece ainda uma pergunta: como pretendes guardar toda essa areia numa ampulheta tão pequena?

- Não sei, já to disse. Que uma coisa seja impossível de fazer não exclui o fato de que deva ser feita. Que a pedra não permaneça no alto do monte não impede que Sísifo a carregue permanentemente para o cume. Que não fosse possível que Psiché fugisse da sentença de Apolo não evitou que ela tentasse se esconder com Eros. Que ninguém tenha voltado do Hades não impediu que Orfeu tenha buscado Eurídice. Ainda que fosse impossível tirá-la de lá.

- Tu e tua religião órfica sem sentido...

- É a única possível.

- Vamos, então. Recolhamos toda a areia desta praia, antes que tenhamos de virar a ampulheta mais uma vez.

- Sabes que isso é impossível, não é, Letícia?

- Sei.

- Fico feliz! Recolhamos.

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Leonardo Ramos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sobre a fórmula de ganhar dinheiro com livros




Minhas visitas à Livraria Leitura cumprem sempre um itinerário fixo: passo rapidamente pela entrada, onde jazem serelepes e coloridos os livros que eu chamaria de fast-read - leituras rápidas, divertidas (não para mim, devo confessar) mas que estragam a saúde mental se usados imoderadamente; sigo, então, para a prateleira da Teoria da Literatura, lugar em que eu posso tratar a literatura com a dignidade e respeito que ela merece; logo depois, a visita à Filosofia é obrigatória, já que sem a epistemologia não haveria Teoria da Literatura.

Pois bem, ontem, indo a essa livraria e cumprindo o itinerário de sempre, eu deparei com um livro coloridinho demais para a área da Teoria da Literatura. Julguei-o, claro, estrangeiro, e tive, tenho de admitir, impulsos xenofóbicos. Logo fui a ele, pensando em intimidá-lo para que me dissesse qual era seu interesse por ali, se estava com os documentos em dia, porque estava com aquela capa chamativa etc. Tomando-o pela gola da camisa e o levantando ante meus olhos, vi que se tratava de um livro sobre Shakespeare - o Zeus do meu Olimpo Literário - e, receoso de que ele me dissesse: "Você não sabe com quem está mexendo, rapaz! Vou reportar essa atitude deplorável aos seus superiores universitários...", eu fiz o movimento de deixá-lo de volta à prateleira, pedindo desculpas pela minha grosseria e justificando que eu o tomei por outra pessoa.

Mas, enquanto eu o repunha na estante, li no título a palavra código. Não, eu não estava errado! Um livro chamado O Código Shakespeare jamais - eu disse JAMAIS! - estaria na Teoria da Literatura. Voltei a erguê-lo pelo colarinho e o revistei à procura de seus documentos: realmente era um estrangeiro. Aquele era um livro filho dos fast-read, escritos para entreter os incautos leitores de fins de semana ociosos. A contra-capa o denunciara: "Um livro recheado de mistério, intrigas..." e outras coisas que não ouso mencionar; o nome da editora, "Best Seller", dispersou qualquer dúvida de que aquele livro estava no lugar errado.

O tal livro segue a fórmula de sucesso já utilizada por Dan Brown e outros: uma história controversa com uma reviravolta em cada capítulo - quando Aristóteles, em sua Poética, dizia (e eu concordo) ser necessária apenas uma - frases de efeito, trechos engraçadinhos, vez ou outra um momento picante, e, no final, uma revelação bombástica retirada do bolso do autor - para não dizer doutro lugar, o que escandalizaria meus hóspedes. Então, o editor faz uma capinha coloridinha, com o nome do autor bem grande, no alto, e o nome do livro no meio com uma fonte bizarra - tudo para chamar a atenção do cliente. Não é à toa que esses livros ficam logo à porta, perto dos caixas: é para facilitar a vida do comprador, que não precisaria se aprofundar demais na livraria nem se demorar na procura. Afinal, a vida anda muito corrida, e não temos tempo a perder no conhecimento de outros tipos de livros. Então, que se deixe logo à mostra o que mais interessa.

Vários motivos me levam ao meu ódio xenofóbico contra esse tipo de livro: em primeiro lugar, a constatação triste e consternante de que pessoas que jamais leram Shakespeare lerão esse livro; em segundo, a certeza de que essas mesmas pessoas, após lerem a merda do tal código, jamais lerão o Bardo; e, por último, o fato de eu ter de ouvir tais pessoas discutir comigo como se o que foi escrito ali é uma verdade dogmática, mas inabalável que o firmamento, mais resistente que o diamante, mais certo que o nascer do sol.

Antes desse livro, um outro, A Conspiração Franciscana, já me tinha feito perder a paciência. Li as primeiras cem páginas dele, por indicação de um grande amigo, que queria debater o livro comigo. Foi uma das piores leituras da minha vida! Nunca vou esquecer os momentos de terror sofridos... Esse meu amigo, no entanto, soube separar o que é ficção - quase tudo que está além dos nomes dos personagens - do que é real. Outros, porém, levaram o livro tão a sério que não era possível dizer coisa diversa do que foi escrito. Era como se eu estivesse "defendendo" os franciscanos por ter sido um, um dia...

É claro que ninguém tem de gostar de literatura como eu gosto. Nunca desejaria isso! Mas é necessário ler livros de ficção como livros de ficção, e livros de fast-read como livros a serem usados com moderação e crítica. Mas que eu saí da livraria pensando num atentado terrorista que eliminasse todos aqueles livros, ah!, eu pensei...

Leonardo Ramos.