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terça-feira, 5 de novembro de 2013

A better life

































Foto: Leonardo Ramos





The better life is that one you carry without any hope at all... Because this way you can take anything as it comes. Simple as that.

I hope so...

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Hermes.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Tiraram-me o meu amado. Tiraram-me tudo. Os deuses me tiraram tudo. Levaram-no para longe dos meus braços, dos meus dedos, da minha boca, dos meus seios. Aonde voltarei meus olhos? Onde descansarei minha cabeça? Tenho-a recostada ao muro desta casa. Que já não é mais casa, já não é mais nada, é só uma pedra de formato estranho e oca, vazia.

Oca. O eco do teu nome ressoa no interior. Preso lá dentro, jamais chegará aos teus ouvidos, para que voltes, mas somente aos meus, para que eu lembre. Esqueço-me. Volto a me lembrar. Olvido. Perdida. Medida sobre medida. Pedra sobre pedra. Amores-perfeitos rodeiam esta pedra fria. Com a maior alegria, pisoteei-as todas. Sufoquei-as. Murcharam. Morreram. Tirei-lhes a vida. Como tiraram os deuses a minha.

À míngua. Quatro dias sem dormir, cinco dias sem comer. Eu sei que eu não devia, mas não consigo não pensar. Não paro de imaginar as muitas mulheres que os deuses devem ter colocado em seu caminho. Caminho de um lado para o outro. De um canto ao outro canto da pedra morta. E paro. Paro ao canto rouco da porta entreaberta. Torta, empenada, enferrujada, inútil. Inútil tentar quebrá-la aos murros. Inútil gritar teu nome dentro desta pedra fria.

Teu nome some pelos ares e volta. Volta assobiando pela porta entreaberta, e me desperta do meu pesadelo. E os meus cabelos, longos, na minha boca aberta me engasgam e me sufocam e me lembram a lã de ouro de que foste atrás. Lã? Será que eu estava sã quando partiste? Eu sei que eu não devia acreditar em tudo o que me dizem. Eu não devia acreditar em deus que não existe. Eu não podia me fiar na volta que prometeste. Eu não devia mais sobreviver quando partiste. Eu não queria mais este corpo que não é teu, nem meu, nem de Afrodite.

Meu corpo agora jaz na pedra fria.

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Leonardo Ramos.

domingo, 29 de julho de 2012

Caverna

Este é o terceiro dia que estou nesta caverna. Aqui não há nem uma nesga de luz do sol. A escuridão é plena e profunda. E, no entanto, eu enxergo bem.

Estou aqui porque, lá fora, desde que eu alcancei este monte, fugido de onde eu vivia, há uma águia prestes a me devorar. Cá dentro, há outros animais, mas eles, até agora, não me fizeram mal algum. Cobras, morcegos e ratos me fazem companhia. Animais cegos ou quase, mas que se saem muito bem nas trevas, enquanto aves de rapina como a águia não sobreviveriam nessas condições por muito tempo. É interessante: a luz não nos ajuda a enxergar. Quanto mais luz, menos visão.

Você tem uma visão muito pessimista da vida, a minha amada me dizia sempre. Que eu via o mundo em tons muito obscuros. Que não me abria para a esperança. Segundo ela, o mundo não era assim. Segundo ela, havia nos homens uma inclinação natural para o bem. O que havia de escuro neles poderia ser redimido se fosse bem iluminado. E vinha com vários exemplos, os quais não lembro - nem sei se os escutava. Ao final, eu dizia, sempre - você, meu bem, é minha esperança. Eu dizia também, sempre, que, quando o homem saiu da caverna, ele recebeu dos deuses um presente, uma caixa. Dentro dela havia a inteligência. A esperança, porém, não estava lá, porque os deuses não sabem o que é isso. Um deus não precisa esperar por nada, não há tempo para imortais.

Para os mortais, sim, há um tempo. E ele é inexorável.

Ela, então, com seu sorriso encantador de sempre, replicava que eu havia caído em contradição. Se eu já havia dito que ela era minha esperança, como eu poderia depois afirmar que os deuses não haviam criado a esperança? Eu sorria e dizia que não havia sido contraditório. Não foram os deuses que criaram a esperança. Fui eu. Ela gargalhava e me chamava de megalomaníaco. Mas eu não sou megalomaníaco. Nunca quis ser um deus nem tenho vocação para ser herói. Meu ódio não permite um ato de heroísmo.

O ódio não cega como dizem. O ódio, assim como a escuridão, ajuda a enxergar melhor. Por exemplo: o ódio do homem que matou a minha amada o fez preparar tudo com cuidado, fê-lo ver tudo com antecedência. Ele a observou por muito tempo. Sabia de sua rotina, de seus gostos, de seus medos. Sabia que era ela a minha esperança. Sabia que era ela todos os meus tesouros, toda a minha vida. Sabia que era ela todo o meu sorriso e o meu bem.

Meu bem - eu dizia a ela, sempre -, o que há de mais humano é o ódio. Os animais não sentem ódio. É preciso ter inteligência para odiar. Eles sentem fome ou medo. O ódio é um sentimento, um sentimento que consome como uma chama. O ódio, eu dizia, é como uma fogueira dentro de uma caverna: ela ilumina e faz com que saia todo tipo de animal pestilento e peçonhento, como cobras, morcegos e ratos. E é só nesse tipo de iluminação que eu acredito. Ela, então, olhava para mim, com seus olhos hipnotizantes, e se dizia triste com isso. Eu sorria e a beijava.

O homem que a matou também a beijou. Ele a amava. Mas não foi o amor por ela que venceu. Foi o ódio por mim que o levou a trucidá-la como fez, sem misericórdia alguma. Porque ele sabia muito bem que era ela todos os meus tesouros. Antes odiar-me que amá-la. Esse ódio, provavelmente, o fez feliz, ainda que por pouco tempo. Sobre ela - na verdade, sobre mim -, ele despejou toda a sua pestilência, toda a sua peçonha, todo mal que havia dentro de si. E isso ficou bastante claro no corpo da minha amada. Quando eu entrei no cômodo em que seu corpo jazia, eu busquei um pouco de luz. Antes fosse cego. Junto ao seu corpo desfigurado, estava também o dele. Não tive outra reação senão a de correr. Deixei os corpos como estavam e fugi.

Eu poderia despejar meu ódio sobre meu próprio corpo, mas não quero me igualar a ele. Eu gostaria de poder fazer meu ódio subir aos céus como uma chama, votado inteiramente contra os deuses, mas eles não existem. Eu queria ser o próprio Lúcifer, o próprio fogo do tártaro, estalando de ira, pronto a sair do fundo das cavernas infernais para caçar os malditos deuses e, um a um, fazê-los sofrer por bastante tempo, até que implorassem por misericórdia. Mas não há tempo para imortais. Tampouco há deuses. E para os mortais, não há esperança. Há somente o tempo, inexorável.

Esta noite, acenderei uma fogueira nesta caverna para que saiam as cobras, os morcegos e os ratos. Criarei meu próprio deus, todo cheio de bondade e misericórdia, e eu serei seu rival, seu perfeito oposto. Eu lutarei contra ele com todo o meu ódio, por razão alguma, e serei vencido. E amanhã sairei também eu da caverna e entregarei meu corpo à águia que ele enviará para que eu seja devorado.

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Leonardo Ramos.

sábado, 7 de julho de 2012

Fonte

Quatro vezes fui à fonte para matar minha sede em águas límpidas. A água não manava da mesma forma as quatro vezes, não era a mesma água nas quatro vezes. O desenho das nuvens no céu não era o mesmo as quatro vezes. Eu não pisei exatamente no mesmo sulco que meus pés abriram as quatro vezes. A sede não era a mesma as quatro vezes. Eu não me dobrei da mesma maneira as quatro vezes. Em cada vez, eu era mais velho. Em cada vez, a água molhou meus lábios de forma diferente. Em cada vez, fazia mais calor, ou mais frio, ou chovia, ou era noite. As quatro vezes eu matei minha sede, que não era a mesma, de maneiras diferentes, na água que não manava da mesma forma, na fonte que era a mesma.

Quatro vezes eu fui à fonte da memória.

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Leonardo Ramos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Laetitia (Diálogo)

- Recolhe, Letícia, recolhe toda a areia da praia.

- Toda a areia? Impossível. Posso recolher bastante. Para que precisas?

- Para minha ampulheta. Bastante não é o bastante. Preciso de toda a areia.

- Como pensas colocar toda a areia desta praia em tua ampulheta?

- Não sei. Recolhe.

- Imaginando que pudesses - porque não podes! - guardar toda essa areia dentro da tua ampulheta: com que objetivo?

- Para que a areia deixe de escorrer pelo orifício estreito.

- Mas a areia na ampulheta só tem sentido se ela se mover de um espaço a outro, marcando o lapso de tempo. Não te entendo. Se queres que ela deixe de escorrer, ao invés de enchê-la com toda essa areia - o que é impossivel! -, esvazia-a.

- Mas então, Letícia, a ampulheta não teria areia. Estaria vazia. Eu é que não te entendo. De que me serve uma ampulheta vazia?

- Porém, permanece ainda uma pergunta: como pretendes guardar toda essa areia numa ampulheta tão pequena?

- Não sei, já to disse. Que uma coisa seja impossível de fazer não exclui o fato de que deva ser feita. Que a pedra não permaneça no alto do monte não impede que Sísifo a carregue permanentemente para o cume. Que não fosse possível que Psiché fugisse da sentença de Apolo não evitou que ela tentasse se esconder com Eros. Que ninguém tenha voltado do Hades não impediu que Orfeu tenha buscado Eurídice. Ainda que fosse impossível tirá-la de lá.

- Tu e tua religião órfica sem sentido...

- É a única possível.

- Vamos, então. Recolhamos toda a areia desta praia, antes que tenhamos de virar a ampulheta mais uma vez.

- Sabes que isso é impossível, não é, Letícia?

- Sei.

- Fico feliz! Recolhamos.

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Leonardo Ramos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Balanço (ensaio sobre um motivo fotográfico)

Foto: Leonardo Ramos


Sou um observador fantasmático das pessoas. Não que eu esteja morto, ou que seja algum tipo de entidade sobrenatural que já pertenceu a um corpo físico. Sou uma pessoa comum, com a vantagem de ser pouco notado pelas outras pessoas comuns.

Costumo parar ao pé de uma árvore seca ou ficar escorado num muro mal-acabado. Fico aí, estático, a ver a procissão dos humanos, carregados em suas preocupações diárias, supérfluas ou importantes, e faço minhas leituras de suas marcas. Sem julgamentos, claro, porque sou um deles, um humano carregado em minhas preocupações diárias, supérfluas ou importantes, e eu também costumo fazer minhas próprias leituras de mim mesmo. Sem julgamentos, claro.

Dias atrás, calhou de eu estar num parque ecológico onde, como sói acontecer, além de árvores e muito verde, há também brinquedos. Brinquedos simples, diferentemente daqueles que estão nos parques de diversões, repletos de botões, engrenagens, assentos, movimentos. Os brinquedos dos parques ecológicos estão mais de acordo com a simplicidade do local.

Nesse parque, então, havia balanços, os favoritos das crianças. Porque, se há uma coisa que um ser humano se ressente de deus é de não poder voar. E se tem um ser humano que mais se sente magoado com essa terrível falha divina é a criança. E lá estão elas, sentadas sobre aquela fatia de madeira retangular, nem sempre bem-trabalhada, suspensa a poucos centímetros do chão por duas correntes, estas presas a um suporte de aço muito bem fixo. Tudo muito rijo – parece –, tudo muito estático. Mas aguarde um balançar de pernas, e outro, e outro agora mais forte, junto com o movimento brusco do tronco para trás: eis o balanço exercendo sua função de dar a ilusão do voo livre.

Nesse dia, não faz muito tempo, os balanços estavam estáticos, à espera da criança para os fazer reviver. No entanto, é uma mulher que desta vez se aproxima: vestido negro, uma bolsa grande, carregada, uma maneira de andar de quem sabe o que quer, um olhar austero e hipnotizante. Sem titubear, deixou sobre um dos balanços sua bolsa grande, carregada – de pensamentos vários, de preocupações inadiáveis, de pequenas conjecturas que escondem grandes decisões, de amores e de amados e de amantes, de filosofia e de necessidades naturais.

Sentou-se no outro balanço. Começou o baile das pernas, para frente e para trás. O tronco, movimentando-se com força para trás, deu ao balanço, num instante, a altura e a velocidade necessárias para o voo imaginário. Interessante como um brinquedo supostamente feito para crianças funciona tão melhor com um adulto, tão carregado, tão cheio de pensamentos vários, de preocupações inadiáveis, de pequenas conjecturas que escondem grandes decisões, de amores e de amados e de amantes, de filosofia e de necessidades naturais.

Mas, muito provavelmente, junto com os movimentos da perna e do tronco, aquela mulher deixou também que a mente balançasse no voo imaginário, guardando os pensamentos, as conjecturas, os amores naquela bolsa estática sobre o estático balanço. Talvez por isso ela tenha alcançado os mais altos céus, lá onde os pássaros costumam planar, mais pesados do que o ar, mas aptos a usar desse mesmo ar – invisível – como seu suporte. Talvez por isso seu sorriso dissesse de um prazer de quem, como uma ave, está pairando sobre o ar – ela mesma mais pesada do que ele, mas apta, agora, a permanecer sobre ele.

Seu voo durou alguns minutos. Mas considero quantos mundos de formas, cores e nenhuma correspondência com este mundo ela visitou. Deve ter planado sobre montanhas disformes, lagos coloridos, céus imensos, terras distantes.

Ao fim, pés no chão. O balanço, num movimento inconformado e desajeitado, para, mas conserva, um tempo ainda, um frêmito convulsivo e estranho. A mulher toma de volta, do outro balanço, estático, sua bolsa carregada. Retoma seu andar de quem sabe o que quer. Seu olhar, austero e hipnotizante, encara o caminho a seguir. Talvez ela tenha deixado cair um ou outro conteúdo de sua bolsa enquanto voltava pelo caminho. Não me importei, deixei-os lá. Deixemos que a terra, a poeira, o chão cuide do que é dele. Cuidemos nós de voar.

Leonardo Ramos.

domingo, 10 de julho de 2011

Eu

Meu
Eu
É
Teu

Sem
Céu,
Ao
Léu.

Mel,
Fel
E
Véu.

Leonardo Ramos.

sábado, 9 de julho de 2011

The boy done wrong again


De minha queridíssima amiga Gelly A.
http://fragellytee.blogspot.com
Foto: Leonardo Ramos

Tenho um piano. Grande, marrom, como um elefante. Foi fabricado em 1810 e devo conseguir um bom dinheiro por ele se algum dia tentar vendê-lo a um antiquário – ou o antiquário o conseguirá, depois de inventar uma boa história sobre seu país de origem e seu primeiro dono. Enfim, tenho um piano, mas ele está a quilômetros de distância de mim, na casa onde passei minha infância e onde, durante a adolescência, arrisquei algumas Invenções de Bach e uma sonata de Mozart – aquela em Dó Maior. Há anos não toco sequer uma escala com as duas mãos. A vida vai se afunilando e, um belo dia, somos especialistas em especialidades especialíssimas nas quais apenas outros especialistas especiais e específicos estão interessados. E fica no álbum fotográfico o arco-íris que a gente chegou a ser um dia.

Mesmo assim, tenho ciúmes do meu piano. Sempre que o visito (por tabela), tiro o pó da madeira, das teclas e dos porta-retratos que minha mãe colocou sobre ele. E digo aos meus priminhos curiosos que o piano está trancado, embora nunca tenha tido uma chave. As pequenas e delicadas mãos deles se transformam em dolorosos martelos quando tocam meu piano. E os convenço a procurarem peixinhos no aquário vazio da sala de jantar. Um dia nós tivemos lindos peixes, diversos, de várias cores e com nomes de pessoas famosas. Hoje o aquário vive a saudade de seus velhos tempos, enquanto serve de suporte para begônias e violetas.

O piano, então, ficou mudo. Se ninguém o toca, ele nada fala, nada canta, nada declama. O piano enfeita a sala de visitas, com a imponência de quem pertenceu a Napoleão Bonaparte, e o silêncio de quem perdeu, por causa do imenso funil das especializações, as mãos brancas que o acarinhavam, assim, sem jeito.

Mudas também ficariam as folhas, se o vento não as movimentasse. E a cascas de semente de sibipiruna, se não pisássemos nelas para ouvir sua voz onomatopaica, no meio do outono. E os livros, se os mantivéssemos fechados. Madame Bovary ainda estaria viva, mas Werther nunca me teria feito chorar.

Meu piano é uma caixa de madeira que guarda as mais belas canções. E nunca irei ouvi-las dele se não atravessar os tantos quilômetros que nos separam e desamassar as partituras certas. Assim também são as pessoas. Algumas delas seriam as melhores convidadas para as festas das quais não foram avisadas. As melhores mães, cujos ventres não foram fecundados. Os melhores escritores que ainda assinam o nome com a impressão digital borrada do polegar. Os melhores amantes que não receberam o telefonema no dia esperado. Porque às vezes há, do lado de dentro, tanta cor e tantas fragrâncias à espera apenas de um olhar mais corajoso, dos dedos certos no teclado, uma sequência adequada de números, notas organizadas com cuidado em um par de versos brancos.

Vezes em que somos como meu piano: esperando que arranquem de nós a canção mais triste para que possamos assim nos sentir um pouco menos miseráveis, desperdiçados, mudos.

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Leonardo Ramos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vagos sentimentos vespertinos

Acrobata da Dor

Gargalha e ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado,
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.
Cruz e Sousa
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Leonardo Ramos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Corpo



Quando é que te verei? Na tua espera
Sou presa desse deus que me devora
Sem pressa, membro a membro; muito embora
Eu permaneça vivo. Ah!, eu quisera

Que no ventre de Cronos – essa fera
De ódio cheia e raiva sem demora –
Eu reencontrasse o meu amor d’outrora,
Assim como, ali, Zeus reouve Hera.

Mas no âmago do Tempo não há nada
Além dum só rochedo – cujo cume
Rapidamente alcanço. Na saliência

Meu corpo entrego – a alma olvidada,
Pendendo entre o frescor de teu perfume
E o infinito abismo de tua ausência.

Leonardo Ramos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Soneto - De ser parece que esqueci-me

De meu grande amigo e irmão Adriano Drummond.
http://naturainutiliarum.blogspot.com

De ser parece que esqueci-me.
E pelo Inferno dos meus olhos
(Já sei bem que castigo escolhe-os,
Certo da espécie deste crime:

Ter-me afogado no sublime),
Sentindo um qualquer perfume – óleos
De Eurídice? – viajo em regime
De abrolhos, antolhos, in-fólios.

Pedras púrpuras palmilho,
Sem Beatriz e sem Virgílio,
Assim sempre a caminhar. Mas

Para nada, nada mesmo.
Também assim, num gesto a esmo,
Achei o morto que em mim jaz.
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Leonardo Ramos.

sábado, 4 de junho de 2011

Oração das 4h40 (Incompletas)

Quando, por fim, meu tosco lábio tocaria
sedento, o teu – ah, deus! –, eu não compreendia
que, como Páris, tendo em vista a bela Helena,
atrairia de altos céus a ira mais plena.

Na noite – mais iluminada do que o dia –
considerei que a dor jamais me alcançaria.
Eu não imaginei, porém, que aquela cena
tamanho ódio causaria em Atena.

Julgando justo o que era justo, adormeci
na justa paz desse pacífico começo;
mas, quando acordo, inda feliz por que vivi,

surpreso e solitário eu colho o que mereço:
o castigo de Hera, pois não a escolhi,
e que Afrodite venha reclamar seu preço.

Leonardo Ramos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

De repente...

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes
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Leonardo Ramos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Braços

Quando se cai no abismo da saudade,
busca-se, em vão, lembranças a salvar:
murmúrios, odores, a suavidade
das mãos entrelaçadas, um olhar,

o falar só por falar, a vontade
de, do abraço, não mais se separar,
o riso sem motivo, a intensidade
dos braços que procuram se enlaçar.

Mas nada nos impede de cair
quando o Hades nos está a reclamar.
E, com Orfeu, nós vamos descobrir

que o mais embasbacante é constatar
que aquele amor que deveria unir
serviu, somente, p’ra nos apartar.

Leonardo Ramos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mãos

Há na separação uma tal propriedade
que, desligando aquilo que se achava unido,
constrói, num laço, um vínculo de intimidade
inteiramente novo, mas não desconhecido,

porque o pensar – esse artifício da saudade –
erige fortes contra a solidão e o olvido:
é como Psiqué guardada na soledade,
feliz mesmo na espera, alheia ao alarido.

Faz muito tempo, Zéfiro levou-te embora
aos altos montes deste amargo afastamento,
longe de mim, perdido em devaneios meros;

mas haverá uma noite e, então, uma aurora;
e, unindo nossas mãos, num descortinamento,
contemplaremos – sob o véu – a face d’Eros.

Leonardo Ramos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Vagos sentimentos vespertinos


Dois poemas que não são meus, mas que podem descrever um pouco do meu sentimento nos últimos dias.

"somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though I have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands"
E. E. Cummings
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"O filho que eu quero ter

É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem

De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro bei..jo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer ter."
Vinícius de Morais



Leonardo Ramos.

sábado, 2 de abril de 2011

Pra que lado fica o porto? Parte III

III

Terás alguns bons amigos,
Que te amarão de verdade;
Outros, serão teus colegas,
Teus companheiros de idade.

Amigos são como o vento
Que move as pás do moinho:
Dão-nos a força precisa
Para seguirmos caminho.

Mas se tiveres colegas
Que te pareçam chatinhos,
Pensa que as rosas têm flores
Que trazem junto os espinhos.

Todos serão companheiros,
Mas cada um tem sua meta.
Um quer ver altas montanhas,
Outro deseja ir a Creta.

Uns vão descer na Argentina;
Outros virão da Espanha.
Há quem embarque na França
Pra desistir na Alemanha.

Aprenderás na viagem
Que velejar sobre os mares
Une duas coisas distintas
E, ainda, complementares:

O capitão do navio
Anda com muita atenção:
Numa das mãos traz a bússola;
Noutra, segura o timão.

Alguma vez acontece
(Sempre que o tempo ameniza)
Que o capitão ergue as velas,
Deixa o navio ir à brisa.

Mas para ir aonde quer
O capitão tem em mente
Que às vezes segue-se a rota,
Noutras nos leva a corrente.

E quando as nuvens se ajuntam
E o céu azul se acinzenta;
Quando há períodos de chuva,
De tempestade e tormenta,

Escolhe apenas um rumo,
Acende muitas luzinhas;
E presta muita atenção
Nas armadilhas marinhas.

(Nunca dispenses ajuda
De quem vem junto contigo,
De quem tem experiência,
Nem de quem for teu amigo.)

Após um breve silêncio
Daquele adulto bonzinho,
O pequenino João
Disse, com todo carinho:

“É muito bom, meu senhor
Ouvir as tuas histórias.
Mas quero agora escutar
As tuas grandes vitórias.”

“Ah, meu querido João,
A vida é contraditória!
Às vezes é na derrota
Que construímos a glória.

Mas, sobre as coisas do mar,
Não vou dizer mais agora.
Tu saberás que fazer
Quando chegar a tua hora.

Não te preocupe a idade,
Não tenhas pressa em crescer;
Só aproveita o momento
E o que ele te oferecer

De bom em cada viagem.
Para saber velejar,
Não temos fórmulas mágicas:
Não há “estradas” no mar.

Lembra somente que agora
Serás, com teus companheiros,
Apenas um tripulante
(Alguma vez, timoneiro);

Mas, se tiveres paciência
Para, com o tempo, aprender,
Navio próprio, algum dia,
Para guiar hás de ter.”

“Nossa conversa foi boa!”
– Disse o menino João.
“Somente agora eu percebo
Que estou na embarcação.

Não sinto mais tanto medo.
Só estou um pouco ansioso
Para curtir a viagem:
Um sentimento gostoso.”

“Mais uma vez nos veremos.”
– Disse o adulto João.
“Guarda tuas experiências
Dentro do teu coração;

Quando eu puder te rever
Quero escutar as histórias
Das tuas grandes viagens,
Das tuas muitas vitórias.”

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Pra que lado fica o porto? Parte II

II

O adulto olhou a criança,
Sorriu, e lhe perguntou:
“Aonde vais, garotinho?
Que coisa te acelerou

Para correres assim
No centro desta cidade?
Que compromisso importante
Será que tens nessa idade?”

“Primeiro eu peço desculpa”
– Responde aquele menino –
“Depois, queria dizer,
Segundo foi meu ensino,

O nome que recebi:
Mamãe me chama João,
E assim me chama meu pai,
Como também meus irmãos.

Agora, sim, peço ajuda,
Estou um pouco perdido:
Ando à procura de um porto
Sem nunca a ele ter ido.”

Responde, então, o senhor:
“Perdoa a mim, amiguinho,
Eu nem te disse meu nome,
Que é como o teu, igualzinho:

O meu também é João.
E bem conheço o caminho
Que chega até esse porto.
Espera só um minutinho...”

“Não posso mesmo, senhor!”
– Disse com raiva. – “O navio
Há de partir daqui a pouco!
Já ouço seu assobio!”

Sorriu-lhe muito o João
(O que possui mais idade!)
E respondeu: “Vai com calma!
Não é preciso ansiedade!

O barco ainda não parte,
Está somente chamando.
Vamos seguir devagar;
E enquanto vamos andando

Vou te contar um pouquinho
De quando eu fui para o mar.
Tinha teu mesmo tamanho
E o mesmo olhinho a brilhar.”

Interessou-se o menino:
“Já que eu não parto tão cedo,
Quero poder te escutar;
Pois tenho um pouco de medo

De viajar no navio.
Vê só: eu sou tão fraquinho,
Sinto-me tão pequenino!
Porque sou só garotinho.”

“Não te preocupes assim
Com teu tamanho, João!
Vou te contar minha história,
Presta bastante atenção:

Achava tudo tão grande
Quando cheguei ao navio!
Era gigante o convés,
Até senti um arrepio...

Havia muitos meninos,
Do meu tamanho ou maiores;
E várias outras pessoas
Estranhas nos arredores.

Paralisado, eu pensava
No que devia fazer.
A gente perde as palavras
Quando precisa dizer.

(Não compres nunca palavras,
Que elas te deixam sozinho.
Juram levar-te pra Roma;
Deixam-te a pé no caminho.)

Quando ficares assim
Não estarás obrigado
A repetir as palavras
Que os outros têm esperado.

Busca tuas próprias palavras
No dicionário da mente;
Mas, se não queres falar,
Faze silêncio, somente.

Aqui está uma coisa
Que vou dizer bem baixinho:
Pessoas são diferentes,
Vais ver durante o caminho.

Pessoas são como a música:
– Assim eu tenho aprendido –
Umas são belas! Mas outras
Machucam bem nosso ouvido...

Há quem entenda o silêncio,
Há quem prefira falar.
Acha teu próprio caminho,
Não penses em os julgar.

E se quiserem julgar
Teu ser pelo exterior,
Lembra que está mais ao fundo
O que merece louvor:

É lá, bem dentro do peito
Que se esconde o amor,
A compaixão, a verdade,
Jóias de grande valor.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Pra que lado fica o porto? Parte I

Para um pequeno menino
(Gigante de coração)
Que se parece comigo,
E que se chama João.


I

Era só seis da manhã.
Bem lento o sol acordava.
Somente havia uma nuvem
Que pelo céu passeava.

O sol, que olhava a paisagem,
Pediu à nuvem licença;
Mas vem o vento veloz
E a empurra co’indiferença;

Ela trombou noutra nuvem
Que andava sem atenção...
Elas gritaram bem alto:
Foi um imenso trovão.

As duas nuvens então
Com muita dor pranteavam;
(E sobre o choro das nuvens
É bom que todos já saibam:

Se alguma delas escuta
Uma colega a chorar,
Chama depressa as demais,
E juntas vão derramar

Aquele choro magoado
Que nós chamamos de chuva)
E o sol, já desanimado,
Calçou as mãos com sua luva,

Vestiu a capa marrom,
Conjunto com seu chapéu;
Pensou: “Que grande bagunça
As nuvens fazem no céu!

Um pequenino problema
Exige todo esse drama?
Ah! Se eu ainda estivesse
Deitado, à noite, na cama!”

As nuvens juntas deixavam
A vista bem mais escura.
Uma dizia: “Não sabes!
Vida de nuvem é dura!

Eu como floco por floco,
E vou ficando gordinha;
Mas quando tem ventania,
Ela me espalha todinha!”

A outra vinha chorando
Querendo achar sua madrinha;
E a descobriu misturada
Com sua antiga vizinha.

Era um acúmulo grande
De nuvens tão diferentes!
Algumas eram mocinhas,
Algumas experientes.

Uma, inclusive, dizia
Que era bastante menina
Quando, saindo, deixara
Sua família na China.

Contou histórias legais,
E quis contar outra vez.
Houve um pequeno problema:
Ninguém sabia chinês.

O sol, cansado de tudo,
Olhando abaixo entrevia
Uma figura pequena
Quando da chuva fugia.

Pediu licença às amigas,
E elas saíram depressa.
Lançou sua luz no menino,
Que parecia com pressa.

Bem logo a chuva parou.
Pôs-se o garoto a correr.
Com seus cabelos molhados
Na sua testa, a escorrer,

Vestia um terno branquinho
E tinha um quepe na mão
Que colocou sob o braço
Pra não jogá-lo no chão.

Mas não sabia o garoto
Por que caminho seguir.
Olhava todas as ruas
Para tentar decidir.

Enquanto olhava pro lado
Não viu o moço parado
Em pé, em frente à parede,
Com seu joelho dobrado.

Bateu o nariz no joelho
Daquela perna dobrada,
Deu piruetas no ar,
Caiu no chão da calçada.

O homem, vendo o menino
Estatelado no chão,
Não lhe negou sua ajuda:
Ofereceu-lhe sua mão

E colocou-o de pé.
O pequenino, apressado,
Pegou seu quepe no chão,
Limpou seu terno manchado

E, quando olhou para o homem,
Tomou um susto danado!
Pois viu que aquele senhor
Como ele estava trajado.