segunda-feira, 9 de julho de 2012

Playlist da semana

Love's labour's lost.

1) Elis Regina - Atrás da porta



2) Sinéad O'Connor - Nothing compares 2U



3) Nick Cave & The Bad Seeds - Into my arms



4) Damien Rice - The Blower's Daughter



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Hermes.

sábado, 7 de julho de 2012

Fonte

Quatro vezes fui à fonte para matar minha sede em águas límpidas. A água não manava da mesma forma as quatro vezes, não era a mesma água nas quatro vezes. O desenho das nuvens no céu não era o mesmo as quatro vezes. Eu não pisei exatamente no mesmo sulco que meus pés abriram as quatro vezes. A sede não era a mesma as quatro vezes. Eu não me dobrei da mesma maneira as quatro vezes. Em cada vez, eu era mais velho. Em cada vez, a água molhou meus lábios de forma diferente. Em cada vez, fazia mais calor, ou mais frio, ou chovia, ou era noite. As quatro vezes eu matei minha sede, que não era a mesma, de maneiras diferentes, na água que não manava da mesma forma, na fonte que era a mesma.

Quatro vezes eu fui à fonte da memória.

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Leonardo Ramos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Laetitia (Diálogo)

- Recolhe, Letícia, recolhe toda a areia da praia.

- Toda a areia? Impossível. Posso recolher bastante. Para que precisas?

- Para minha ampulheta. Bastante não é o bastante. Preciso de toda a areia.

- Como pensas colocar toda a areia desta praia em tua ampulheta?

- Não sei. Recolhe.

- Imaginando que pudesses - porque não podes! - guardar toda essa areia dentro da tua ampulheta: com que objetivo?

- Para que a areia deixe de escorrer pelo orifício estreito.

- Mas a areia na ampulheta só tem sentido se ela se mover de um espaço a outro, marcando o lapso de tempo. Não te entendo. Se queres que ela deixe de escorrer, ao invés de enchê-la com toda essa areia - o que é impossivel! -, esvazia-a.

- Mas então, Letícia, a ampulheta não teria areia. Estaria vazia. Eu é que não te entendo. De que me serve uma ampulheta vazia?

- Porém, permanece ainda uma pergunta: como pretendes guardar toda essa areia numa ampulheta tão pequena?

- Não sei, já to disse. Que uma coisa seja impossível de fazer não exclui o fato de que deva ser feita. Que a pedra não permaneça no alto do monte não impede que Sísifo a carregue permanentemente para o cume. Que não fosse possível que Psiché fugisse da sentença de Apolo não evitou que ela tentasse se esconder com Eros. Que ninguém tenha voltado do Hades não impediu que Orfeu tenha buscado Eurídice. Ainda que fosse impossível tirá-la de lá.

- Tu e tua religião órfica sem sentido...

- É a única possível.

- Vamos, então. Recolhamos toda a areia desta praia, antes que tenhamos de virar a ampulheta mais uma vez.

- Sabes que isso é impossível, não é, Letícia?

- Sei.

- Fico feliz! Recolhamos.

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Leonardo Ramos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Playlist da semana

Covers.

1) Radiohead - The Headmaster Ritual (de The Smiths)



2) Pearl Jam - You've got to hide your love away (de The Beatles)



3) Gnarls Barkley - Reckoner (de Radiohead)



4) Bill Callahan - So long Marianne (de Leonard Cohen)



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Hermes.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Playlist da semana

Pianos. From the Basement.

1) Thom Yorke - Last Flowers



2) PJ Harvey - The Devil



3) Eels - It's a motherfucker



4) Damien Rice - Rootless Tree



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Hermes.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Playlist da semana

Participações especiais em apresentações.

1) Radiohead - Lucky (com Michel Stipe)



2) The Cure - If only tonight we could sleep (com Placebo)



3) Arcade Fire - Wake up (com David Bowie)



4) Wilco - You and I (com Leslie Feist)



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Hermes.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vagos sentimentos vespertinos

Soneto - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.
Luís Vaz de Camões

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Leonardo Ramos.